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Rating:
Archive Warning:
Category:
Fandom:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Collections:
Panelinha da Limonada
Stats:
Published:
2019-03-20
Completed:
2019-03-20
Words:
20,359
Chapters:
10/10
Comments:
14
Kudos:
10
Bookmarks:
3
Hits:
106

Essa vida que dura milhares de anos em breve terminará

Summary:

O nome desenhado em seu peito era bonito, ainda que ele fosse um demônio e não devesse ter nome nenhum sobre a pele.

Notes:

História escrita para Amigo Secreto da Panelinha da Limonada.

Se quiser conhecer o grupo e participar dos desafios de escrita, seja bem vindo: https://www.facebook.com/groups/panelinhadalimonada/

^^

O título foi roubado descaradamente da música do Queen, A Kind of Magic.

Chapter 1: Capítulo 1

Chapter Text

It's a kind of magic
One shaft of light that shows the way
No mortal man can win this day
It's a kind of magic
The bell that rings inside your mind
Is challenging the doors of time

- A Kind of Magic, Queen

Drustan estava colhendo ameixas negras, grandes e maduras, crescidas na terra sem sol de Andraz e regadas com sangue de gatos pretos, quando, de repente, houve um puxão em seu peito.

Ele não era exatamente popular, mas já tinha sentido aquilo vezes suficiente para reconhecer a sensação — como se alguém tivesse colocado uma das mãos entre suas costelas e agarrado seu coração, puxando seu corpo inteiro por ele. Drustan foi rápido o bastante para largar a cesta com ameixas. Tentar levar alguma coisa através da conexão era sempre mais doloroso do que simplesmente ir. Seu último pensamento antes de passar da existência para não existência foi que não conseguiria fazer nenhuma geleia naquele dia.

Drustan abriu os olhos para uma cena que era apenas parcialmente familiar: velas de chama azul queimando ao redor de um círculo mágico desenhado no chão, flores de lavanda, uma pena de corvo na direção de cada ponto cardeal. No entanto, faltava o gosto de desespero. Estendeu a língua, mas não conseguiu provar nenhuma gota de desalento no ar abafado do quarto. Normalmente a pessoa que o invocava estava desesperada. Ele também costumava associar uma convocação ao cheiro de morte — alguém querendo reverter o falecimento de um ente querido, desejando vingança através do derramamento de sangue ou assustado por ter acabado de matar uma pessoa.  

O humano a sua frente nunca tinha sido tocado pela morte. Havia medo emanando dele, mas estava quase totalmente abafado por puro nervosismo e por um sentimento de expectativa. Ele o encarou com os olhos arregalados e a boca ligeiramente aberta. Drustan achou um pouco adorável. O rapaz era quase uma criança, não muito mais do que duas décadas de vida, apenas um pouco acima da idade de consentimento para um pacto. Ele também era bonito — cabelos longos, uma barba rala sobre as bochechas e pele clara.

As janelas do aposento estavam cobertas por cortinas pesadas. Drustan ainda podia discernir o sol lá fora, mas a luz não chegava até ele diretamente. O garoto sabia o que estava fazendo se tinha tido o cuidado de tapar as janelas. Drustan correu os olhos pelo ambiente. O círculo de invocação estava bem desenhado e tinha sido feito tanto para chamá-lo quanto para prendê-lo ali. O lugar estava repleto de ervas e de livros; a poeira que cobria o quarto rescendia a magia. Drustan encarou o humano novamente; ele manteve seu olhar. Oh. O rapaz era um bruxo, não alguém fazendo uma evocação por acidente porque estava bêbado. Isso provavelmente tornaria seu trabalho mais fácil.  

Drustan sorriu. O gesto fez o garoto se inclinar para trás.

— Você é um demônio? — A voz dele soou firme. Era uma pergunta estúpida, mas desculpável. Drustan já tinha ouvido coisas piores ao ser chamado.

— Vindo das profundezas de Andraz, meu bem. — Na verdade, não tão das profundezas. Sua cabana ficava nas bordas do reino. Entidades mais antigas sequer conseguiam permanecer naquela região durante muito tempo em suas formas naturais porque a proteção das Terras Escuras era mais diluída na fronteira com a dimensão humana. Mas garoto não precisava saber desses detalhes.

Com um movimento casual, Drustan arriscou estender a mão para o círculo desenhado no chão. Seus dedos arderam assim que ele tocou a marca. Ele suspirou. Em Andraz, ele poderia tanto respirar quanto não respirar. Ali parecia simplesmente inadequado não encher os pulmões de ar.  

A invocação exigia que ele aparecesse de joelhos diante do humano que o chamara. Era algo que o incomodava no início. Humilhante. Todo demônio já tinha amaldiçoado a alma da bruxa que descobrira a fórmula para fazer com que eles sempre se materializassem desse jeito. Mas, ao menos, ele não precisava se manter ajoelhado o tempo inteiro. Drustan deixou-se cair para trás, sentando-se com as pernas cruzadas.

O humano o observou como se estivesse olhando para um gato prestes a derrubar itens delicados de uma prateleira apenas porque sim. Drustan tinha consciência de que não era muito impressionante como um demônio — a maneira como eles se mostravam para os humanos era sempre mais palatável do que a forma que tinham no seu próprio reino. Sua cauda e seus chifres ficavam em Andraz. Ali, os principais traços que distinguiam como uma criatura das Terras Escuras eram suas orelhas pontudas, as garras afiadas e os caninos salientes. O rapaz avaliou cada uma dessas coisas, e então assentiu, parecendo convencido de que sua invocação realmente tinha dado certo.

— O que quer de mim, doçura? Poder? Ter alguma coisa? Ser alguma coisa? Fazer com que uma pessoa te ame...? — Drustran ofereceu. — Você tem uma cara bonita, deveria ser capaz de conseguir alguém para foder sozinho, mas eu sei que existem garotas bem difíceis por aí. Podemos dar um jeito nisso. O preço é negociável — disse. Barganhar era sua parte preferida naquele trabalho.

As bochechas do rapaz tornaram-se vermelhas. Amor, então. Amor e morte eram sempre as melhores apostas, e ele já tinha descartado a última.

— Eu quero saber o seu nome.

Drustan sentiu a magia do círculo pinicar: toda força de vontade do rapaz estava colocada naquele pedido. Ele não poderia recusar mesmo se quisesse — dar o seu nome era justo . Mesmo que as criaturas de Andraz não se importassem muito com o conceito de justiça, era como a velha mágica funcionava. Se o humano que o invocava pedia essa informação, o demônio era obrigado a dar, sequer podia incluir o pedido na negociação.

—  Sou Drustan, doçura.  

O garoto fechou os olhos. Pela sua expressão parecia que Drustan tinha batido nele, em vez de apenas se apresentado. Inconscientemente o rapaz estendeu a mão. Os dedos dele se enrolaram sobre a capa de um livro que estava caído no chão. Só então Drustan prestou atenção no objeto — a capa era vermelho sangue, com uma lua e uma estrela de cinco pontas desenhadas em dourado. Um grimório.

Ele teve a sensação de ter caído em uma armadilha.

— Eu vou tocar em você. — Não foi um pedido, então Drustan não se dignou a dar uma resposta.

O garoto respirou fundo e inclinou-se para frente. Um arrepio percorreu sua espinha no momento em que a mão do bruxo cruzou o círculo. O ato foi invasivo. Ele estava preso no círculo, mas aquele também era um espaço no qual estava seguro, seu próprio pedaço das Terras Escuras naquele mundo. Foi pior quando o rapaz encostou em sua pele.

Mágica estalou entre os dois. Lentamente, ele traçou o contorno da sua mandíbula e o desenho das suas sobrancelhas. Andraz era sempre muito quente ou muito fria; não havia meio termo nas Terras Escuras. O toque do bruxo parecia fresco e morno ao mesmo tempo. Ele estava sendo delicado. Drustan foi atingido por um sentimento de ternura tão forte que o deixou atordoado, mas logo em seguida o rapaz retomou o controle e o bloqueou. Pela segunda vez naquele dia Drustan teve a sensação de que alguém segurava o seu coração nas mãos. Era muito mais íntimo do que a invocação, no entanto. Pendeu em direção ao bruxo, sentindo-se atraído por ele com tanta força que teve que fincar as garras no chão de madeira para se impedir de cruzar o círculo.

Doeu quando o rapaz rompeu o contato, como se fosse antinatural se afastarem. A intensidade daquela magia o assustou.

— O que você fez? — Drustan perguntou num tom baixo e sibilante.

— Eu não fiz nada.

A resposta fez Drustan rosnar, mostrando as presas. O bruxo tirou a mão totalmente de dentro do círculo.

— Não minta para mim. Você perguntou o meu nome, mas já sabia qual era. Você me chamou aqui — disse, fazendo um aceno para o grimório —; eu, não um demônio qualquer. E agora isso . O que acabou de acontecer?

O outro mordeu os lábios.

— Vou dizer, mas você precisa prometer que não vai enlouquecer.

— Eu não faço promessas, querido. Trabalho com pactos, acordos, com um pedido e um preço bem definidos.  — O bruxo não tinha nada a pedir a ele, Drustan percebeu pela forma como ele o fitou. Toda aquela situação estava muito longe do seu domínio.

Drustan se sacudiu, tentando escapar do círculo. Ele quase pôde sentir a escuridão de Andraz, mas, então, chamas azuis lamberam sua pele. Chiou de agonia.

— Não faça isso, por favor, você só vai se machucar... — o garoto pediu, como se vê-lo se ferir também o perturbasse. Pela primeira vez Drustan captou cheiro de desespero, mas não tinha certeza se era seu ou do outro.

— Essa magia não vai durar para sempre — ameaçou. Era verdade, mesmo o bruxo mais poderoso só podia conter um demônio por algum tempo. Aquele rapaz era bom, mas nada especial. Não demoraria muito para que a sua mágica enfraquecesse.

O bruxo pareceu considerar suas palavras durante um segundo, depois suspirou.

— Você está certo, eu já sabia o seu nome. Você está listado como o número quatrocentos e setenta e sete no Grimório de Invocações de Agrona, a Encantatriz.

Fazia mais trezentos anos, mas Drustan se lembrava de Agrona — ela fora uma mulher alta e bonita e tinha pedido principalmente informações sobre outros demônios, oferecendo mel temperado com especiarias em troca. Aparentemente a bruxa tinha andado muito ocupada se ele era o quadringentésimo septuagésimo sétimo demônio que ela chamara. Ela ter colocado seu nome em um livro explicava o fato de os seus últimos três séculos terem sido consideravelmente mais movimentados do que o resto da sua vida.

— E por que você me chamou?     

— O livro não foi o primeiro lugar em que eu li o seu nome.

Drustan sentiu uma pontada de raiva queimar suas entranhas.

— É bom saber que estou famoso, agora me deixe sair daqui — disse de uma maneira que era mais rosnado do que palavras.

Ele estava prestes a se debater novamente na tentativa de alcançar sua forma natural e se desvanecer, quando o garoto começou a se despir. O absurdo daquilo o fez ficar quieto. O bruxo desatou o laço que prendia sua camisa e a puxou para fora. Drustan se esqueceu de respirar.

A pele dele era muito branca, exceto por uma marca no peito, em cima do coração. Ele pousou a mão sobre a marca antes de suspirar e se aproximar alguns centímetros.

— Aqui...

Drustan percebeu o que estava acontecendo um segundo antes de discernir seu nome no peito do garoto. Sentiu-se zonzo.

— Eu me chamo Muriel, mas você já deve saber disso.

Ele sabia. O nome de Muriel soando no ar foi como um feitiço. Os pelos do seu corpo se arrepiaram. Dustan tocou o próprio tronco por instinto, logo abaixo da axila esquerda, onde o nome dele estava esculpido na sua pele.

— Porra.

Muriel sorriu.  

— Sim, é o que eu venho pensando desde que descobri que minha alma gêmea é um demônio.

— Você não devia ter me chamado.

— Eu precisava ter certeza de que era mesmo você — ele disse, mas seu sorriso esmoreceu. Drustan achou que o outro parecia envergonhado de repente.

Era agora que ele pediria alguma coisa, algo como sexo ou me torne o bruxo mais poderoso do mundo ou me conceda imortalidade. Algo grande e importante, e Drustan sequer poderia cobrar um preço adequado. Provavelmente seria um pouco como cobrar de si mesmo — uma parte da alma do bruxo já era sua de qualquer forma. Não havia nenhum manual sobre como fazer um pacto com sua própria alma-gêmea. Demônios não deveriam ter alma-gêmeas.

Em vez disso, Muriel o encarou e depois baixou o olhar.

— Sinto muito.

Drustan pôde sentir a vulnerabilidade do outro. Ainda não havia nenhum pedido prendendo-o. Raspou as unhas na borda do círculo, permitindo que a mágica o queimasse, deixando que Muriel sentisse aquilo também.

— Me solte — disse numa voz melodiosa que era um encantamento por si só.

O bruxo o encarou com um pouco de desconfiança.

— Só quero entender porque fui marcado com o seu nome...

— Eu não vou fugir — falou. Era o que os demônios faziam de melhor, mentir e ludibriar.

— Tudo bem — Muriel disse e suspirou.

Deviam existir alguns romances no meio de todos aqueles livros sobre encantamentos. Obviamente o rapaz achava que manter sua alma-gêmea presa durante todo o primeiro encontro não era muito cavalheiresco, mesmo que ela fosse uma criatura das Terras Escuras.

Muriel curvou-se e fechou os olhos, passando os dedos pelas linhas do círculo enquanto murmurava o feitiço para libertá-lo. O rapaz esbarrou no seu braço durante um segundo, e Drustan voltou a sentir ternura emanando dele. Seria fácil deixar-se afogar naquele sentimento, ficar ali, responder as perguntas do outro, deixar que ele tocasse sua marca, talvez beijar seu nome desenhado na pele dele. Se estivesse em Andraz, Drustan teria sacudido a cauda para se livrar daqueles pensamentos. Ali, apenas respirou fundo.

Foi como se uma brisa passasse por ele quando a mágica de aprisionamento do círculo se rompeu. Muriel se afastou, dando-lhe espaço.

— Pronto, você...

Drustan não chegou a ouvir o final da frase, mas teve a impressão de que ouvira uma maldição enquanto seu corpo se convertia em fumaça e energia e era envolvido pela escuridão de Andraz.

.

.

.

O tempo era um  pouco distorcido entre as dimensões. As ameixas que ele tinha colhido estavam podres, e Drustan teve que espantar moscas varejeiras para recuperar sua cesta.