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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-11-19
Updated:
2025-12-18
Words:
10,274
Chapters:
4/5
Comments:
13
Kudos:
7
Hits:
234

Através do Olhar Vermelho

Summary:

McAllister sabia que ele e Patrick eram iguais. Reflexos dissonantes, duas faces da mesma lâmina. Mesmo assim, era chamado de monstro, enquanto Pat carregava o papel do mocinho de cachos dourados. Aquilo o divertia. Gostava dele, de verdade. Gostava da mente brilhante que tornava a caçada tão intoxicante, divertida. Saborear sua sanidade aos poucos se tornara quase um ritual, quase um vínculo íntimo e perverso.
Então surgiu aquela mulher. E ela trazia o lado humano de Patrick à tona. Fazia Jane sorrir.
Não.
Isso não era justo.
Não fazia parte do jogo.
Patrick Jane não deveria ser feliz.
Não no mundo deles.

Chapter 1: Capítulo 1

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Havia algo nele que chamava a atenção. Tratava-se de um homem magnético, mas não bonito e talvez fosse exatamente isso que o tornava inquietante. Não havia suavidade nele, nada que convidasse um olhar prolongado por mero prazer estético. Seu magnetismo era da ordem do predador, como se estivesse sempre disposto a capturar alguma coisa. Sua força vinha do que ele exalava, de uma sensação de poder silenciosa que permanecia mesmo quando tentava parecer casual, com passos leves e postura relaxada. Era inútil. A magnitude que emanava de seu peito estufado não era grandeza. Nascia dos pés plantados no chão como raízes duras, subia pelas pernas tensas, acumulava-se no tórax como um peso de chumbo e por fim vazava pelos olhos vítreos, azulados e tão vazios que pareciam abandonar o corpo antes mesmo de qualquer pensamento.

Os dedos calejados batiam na mesa de pinus como um tique involuntário, preenchendo a escuridão densa do escritório. A luz do notebook moldava o escritório em contornos angulosos, rasgava metade de seu rosto e deixava a outra metade entregue ao escuro. A barba por fazer acentuava a sombra permanente em seu maxilar, a palidez quase cirúrgica da pele destacava as linhas das bochechas, e os óculos escorregados na ponta do nariz conferiam uma estranha mistura de banalidade e ameaça. Um charme áspero, se é que esse tipo de charme pode existir, temperado por uma boca ressecada e aquele odor arbóreo que parecia impregnado em sua própria ossatura.

Ele observava a imagem da moça com uma fixação que não admitia para si mesmo. Não era apenas curiosidade. Não era só análise. McAllister sabia reconhecer beleza, e ela era bonita, sim, mas estava longe de ser a mais bonita que já vira, um conceito de beleza que ele classificava como inconveniente. O problema eram os olhos. Aqueles olhos esverdeados, ferozes, que pareciam sempre antecipar o golpe; eram olhos que sobreviveriam mesmo quando o corpo vacilasse. Ele odiava isso. Preferia olhos obedientes, dóceis, previsíveis. Como os de Grace Van Pelt. Como os de Emma Plaskett. Como os de Ângela Jane

Mas aquela pequena selvagem… Patrick Jane a tinha escolhido. E isso, para McAllister, era uma afronta.

Coçou o queixo com força, arrancando de si mesmo aquele ruído áspero, quase um arranhão, um som que parecia mais adequado a um animal grande do que a um homem. A madeira da cabana em Napa estalava com o vento, mas os estalos eram pequenos perto do que se movia dentro da cabeça dele. Uma pressão, uma impaciência ardida, um desejo crescente de esmagar a lógica por trás das escolhas de Jane, de destruí-la para enfim jogá-la de volta ao rosto dele.

Fechou a fotografia e abriu o arquivo de vídeo. Afastou-se no encosto da cadeira com um suspiro curto, quase um rosnado, quando a dor nas costas subiu devagar, como uma maré que não tinha pressa; dor era útil, dor mantinha a mente afiada. E então a imagem apareceu: ela dormindo.

A moça parecia menor quando repousava. O rosto miúdo, a franja ondulada caindo de lado e abrindo espaço para as sobrancelhas levemente franzidas, como uma raposa do deserto, que até mesmo no sono carrega um instinto de defesa. Arisca. Desconfiada.

Aquilo o irritou de imediato

Aproximou o rosto da tela. O brilho do vídeo refletiu em seus óculos, ocultando parcialmente seus próprios olhos, tornando-os ainda mais inumanos. 

McAllister cerrou os dentes.

Ele estudava a moça com uma intensidade hostil, quase cirúrgica. Queria atravessar aquela imagem, arrancar cada camada daquela mente e descobrir exatamente o que Jane tinha enxergado e então destruí-la. Não para obtê-la. Não para possuí-la. Mas para provar a Jane que podia quebrar o que ele valorizava. Sempre. Todas às vezes.

McAllister sabia que eles eram iguais. Um reflexo dissonante um do outro, duas faces da mesma lâmina. Mas, de algum modo, ele era o monstro, e Patrick o mocinho de fios loiros encaracolados. Aquilo quase o fazia rir. Gostava dele. De verdade. Patrick era um bom rapaz, uma mente brilhante, o tipo de camarada com quem poderia reinar em silêncio sobre qualquer tabuleiro.

Só que a brincadeira era infinitamente mais interessante assim, quando havia uma caçada entre eles. McAllister adorava devorar a sanidade de Patrick aos poucos, como quem saboreia um vinho raro. Adorava vê-lo se perder na própria obsessão, se entregar ao momento deles. Um vínculo quase íntimo, quase carinhoso, quase perverso. Às vezes, RJ se perguntava se não havia transformado aqueles anos em uma espécie de paternalidade, um afeto patológico, um carinho psicótico. Provavelmente. Certamente, algo assim.

Mas então aquela mulher existia. E trazia o lado humano de Patrick de volta à superfície. Fazia com que Jane sorrisse de forma sincera.

Não.

Não era justo.

Não era o jogo que ele queria jogar.

Patrick Jane não deveria ser feliz.

Não no mundo deles.

O que o dilacerava não era Teresa em si, McAllister simplesmente não enxergava nela o que Patrick via. Aquilo feria. Profundamente. Logo eles, tão iguais, tão alinhados em raciocínio, separados por uma tangente minúscula e irritante: ele não via sentido algum em Teresa Lisbon. Não encontrava nela o charme que havia capturado seu rival.

E esse descompasso o corroía.

O amargor subiu pela garganta, quente como bile, lembrando-lhe o gosto de uísque forte que irritava o esôfago quando bebido rápido demais. Um refluxo de raiva.

Patrick a amava.

E — como se Deus estivesse punindo seu anjo rebelde — McAllister descobriu que não conseguia tirá-la dele. Não como fez da última vez. Não com aquela naturalidade assustadora de quem arranca um membro do corpo alheio só para observar a reação.

Por quê? Havia mesmo criado tamanho afeto por aquele homem?

Seu maxilar se movia num ranger discreto, repetido, como se mastigasse a própria irritação.

A imagem do sorriso de Patrick surgiu em sua mente como um gosto amargo, metálico, de sangue prestes a subir pela garganta. Jane fazia aquilo com ele: arrancava de suas entranhas impulsos que ele acreditava ter enterrado sob camadas de controle. Era uma guerra fria entre dois predadores que se reconheciam pelos passos.

McAllister reclinou-se de novo, mas o gesto foi envenenado pela tensão interna. Seu corpo não obedecia ao relaxamento; era feito de fibras, vícios e tiques. Levou a mão ao mouse com a precisão de quem empunha uma lâmina e avançou alguns segundos no vídeo, observando a moça se remexer no sono. Um movimento quase imperceptível da cabeça, como um animal farejando perigo dentro de um sonho.

“Claro que você sente.” murmurou, a voz baixa, rouca, mais um pensamento escapado do que uma fala. “Pat escolheu você.”

Havia desprezo na frase. Mas havia também algo mais: irritação… e, sob ela, curiosidade. Uma curiosidade doente.

Ele ampliou a imagem. Cada detalhe do rosto dela aumentou na tela: a pele ligeiramente marcada pelo cansaço, o vinco entre as sobrancelhas, a respiração quase tímida. Um rosto doce demais para estar envolvido no jogo de dois homens que só compreendiam o mundo pela lógica da caça.

E, ainda assim, ali estava ela. Pequena. Encolhida. Protegida por um fantasma que vibrava dentro de cada decisão de Patrick Jane.

Gostava do nome Teresa, que evocava paz e não despertava nele nenhum impulso corruptivo, algo raro, quase inconveniente. Ele reconhecia que ela era uma mulher interessante. Patrick Jane adorava vê-la respirar e, ironicamente, o modo como os seios, coberto por uma camiseta larga de dormir, subia ritmadamente enquanto o ar escapava entre seus lábios bonitos e rosados deixou Roy igualmente enfeitiçado. Mas não era suficiente. Ela permanecia, para ele, como uma imagem sacra, porque não possuía qualquer provocação que o induzisse a predá-la.

Havia algo na essência da vida de Lisbon que era bonita demais, limpa demais para o mundo em que ele e Patrick se moviam. Sua irracionalidade tornava-se, neste ponto, menos irracional.

Mas, ainda assim, McAllister adorava ver seu garoto morrer lentamente. Alimentava-se disso. Saboreava cada migalha de desespero, cada sombra que se instalava no olhar de Jane quando ele percebia mais um elo sendo arrancado.

Essa contradição o dilacerava. Essa dinâmica incômoda entre ele, Patrick e Teresa, um triângulo improvável, antinatural, doente. Porque ela havia se envolvido. Como um pequeno camundongo curioso que tropeça no laboratório errado, no instante errado, sob o olhar do predador mais errado possível.

E agora a peça dela estava no tabuleiro. Inserida. Inexplicavelmente protegida.

McAllister apertou o lábio inferior entre os dentes. Não o suficiente para ferir, mas o bastante para conter o impulso que começava a transbordar, como se uma parte dele estivesse pronta para rasgar qualquer elemento que Jane ousasse tocar. Essa vontade pulsava nele, densa, insistente, quase viva.

Mas Red John, pela primeira vez em muito tempo, não sabia qual movimento realizar.

Porque não queria arrancar aquela mulher de seu Pat.

E isso, mais do que qualquer afronta, mais do que qualquer provocação calculada de Patrick Jane, isso o deixava profundamente irritado.

Como se alguém tivesse alterado as regras de seu jogo sem lhe pedir permissão. Como se um pedaço da própria monstruosidade tivesse falhado. Como se a presença dela fosse uma fenda inesperada no circo que ele montou por anos.

E Red John não tolerava fendas.

Fendas acumulavam luz.

E a luz era intolerável.

 

Notes:

A relação de RJ com a dinâmica Patrick x Lisbon me incomodou muito durante essa semana. Eu precisava escrever algo sobre isso. Ele foi complacente com ela, porque não fez nada durante muitos anos, mesmo sabendo que Lisbon havia se tornado a pessoa mais importante da vida de Jane.

Ah, eu achei o toque suave de chamá-lo de Roy (no trecho "enfeitiçado") muito divertido. Durante seu relacionamento com Rosalind Harker ele era "Roy Tagliaferro", e definido por ela como um homem apaixonado.