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Uma loba solta na mansão Addams

Summary:

Depois do fiasco Crarckstone, a relação entre Wednesday e Enid muda drásticamente. Sentimentos surgem e exigem medidas drásticas.
Esther é uma idiota.
Os Addams resgatam Enid em São Francisco.
Enid é levada para a mansão e o desastre eventualmente alcança o casal apaixonado.

“Em que está pensando?” — sinalizou Thing, empoleirado no banco do carona ao lado de Lurch — “Sua carranca parece mais assustadora que o normal.”
Qualquer pessoa que não conhecesse Wednesday tão bem imaginaria que ele sequer tomara conhecimento da mensagem em código morse digitada pela mão, principalmente pelo tempo que levou para desviar os olhos da paisagem que passava rápida pela janela, e demorando ainda mais para permitir que uma única palavra passasse por seus lábios em tom de derrota.
— Enid. — respondeu, como se aquele nome dissesse tudo o que ela precisava transmitir.

Chapter 1: capítulo 01

Chapter Text

“Em que está pensando?” — sinalizou Thing, empoleirado no banco do carona ao lado de Lurch — “Sua carranca parece mais assustadora que o normal.”

Qualquer pessoa que não conhecesse Wednesday tão bem imaginaria que ele sequer tomara conhecimento da mensagem em código morse digitada pela mão, principalmente pelo tempo que levou para desviar os olhos da paisagem que passava rápida pela janela, e demorando ainda mais para permitir que uma única palavra passasse por seus lábios em tom de derrota.

— Enid. — respondeu, como se aquele nome dissesse tudo o que ela precisava transmitir.

Sentada no banco traseiro do Pontiac, usava a mesma roupa de quando colocara piranhas na piscina da escola, inclusive os mesmos sapatos. Normalmente, não se importava com roupas, as escolhia pela praticidade mais que por vaidade ou modéstia, mas, se alguém perguntasse e fosse importante o bastante para receber uma resposta honesta, ouviria a vidente dizer que passara a gostar mais daquele vestido, misteriosamente depois dos elogios recebidos de Enid quando a vira vestida nele.

“O que sobre Enid?” — bateu a mão no couro do encosto do banco.

— Não sei exatamente…

A garota não mentia. Ela realmente não fazia ideia de por que seus pensamentos insistiam em voltar a sua colega de quarto tão frequentemente desde que se despediram há menos de uma hora.

Diferente do suposto por aqueles que a viam em sua pose empertigada, nas ameaças que fazia a todos que ousavam olhar na sua direção, suas expressões severas e ouviam suas palavras em tom morto, a menina sentia.

Muito mais do que gostaria.

Na verdade, era justamente por não saber lidar com tantas emoções que ela lutava inconscientemente com tanta força para evitá-las. Ódio, rancor, melancolia e a desesperança ela conseguia lidar, porque era o que as atitudes das pessoas de modo geral mostravam mais frequentemente e também porque devolver essas mesmas emoções de forma mais dolorosa, fria e cruel se tornara uma espécie de divertimento, mas também constituía uma parte do escudo atrás do qual se protegia.
E se sua opinião generalizada sobre os humanos era a mais pessimista comparada a qualquer outra criatura viva no planeta, era justamente por receber das pessoas, fora da família, apenas violência, injustiça e incompreensão.

“Somos muito mais pacientes com eles, que eles jamais serão conosco”, disse Morticia quando Wednesday ainda era uma criança e a vida fora de casa mostrou a verdade dessas palavras quando a menina aprendeu na prática que as pessoas “normais” são quase sempre incapazes de aceitar as diferenças e tendiam a reagir com violência a qualquer insistência de coexistência.

Depois do assassinato de Nero, escolheu ser a “pedra no sapato” ou o cume da faca, para todos que insistiam em se aproximar.

Se o jeito de ser dos Addams, se suas preferências e particularidades as deixavam desconfortáveis, Wednesday elevaria esse incômodo ao máximo que pudesse.

Desde muito cedo, antes mesmo do episódio que pôs fim à vida do seu amado escorpião, percebeu em si a facilidade para interpretar o mundo de forma analítica, baseando sua vida em conhecimento e interpretações objetivas dos fatos, e se recusando a ceder aos sentimentos comuns às crianças da sua idade que as incentivavam a formar grupos, sempre acreditando que conexões afetivas poderiam se tornar elos frágeis, portanto a serem evitados a todo custo.

No entanto, naquele momento, o primeiro em que se via “sozinha” desde muitos dias, o alívio que imaginara encontrar longe das pessoas, e até mesmo a contrariedade de voltar para casa, não estava ali, com ela.

Enid mudou algo fundamental em Wednesday.

Apesar de preferir a crença de não possuir um coração, por bom senso básico era obrigada a reconhecer que a relação com sua colega de quarto mudou muito desde o dia em que se conheceram até o abraço que queimou uma marca em sua alma. Uma marca que ela mesma chamou de indelével, uma marca que a fez abdicar voluntariamente do isolamento e da distância pelos dias após o ataque, e que naquele momento mostrava ter se tornado uma promessa que a acompanharia para o resto de sua existência.

Ela só não esperava que isso se manifestasse com tanta ousadia, atrapalhando seus pensamentos e causando aquele tipo novo de incômodo que ela não entendia.

Por mais que procurasse uma explicação, a forma lógica e racional como sempre organizou sua mente parecia apresentar falhas catastróficas. E enquanto uma parte dela revisava todos os acontecimentos dos meses anteriores, o fiasco que fora a investigação sobre os assassinatos, as mortes desnecessárias, o evento sangrento onde tudo foi revelado, o desfecho insatisfatório… e por mais que vasculhasse sua mente à procura do momento em que Enid se tornara tão importante, encontrava apenas a onipresença da loba, como se todas as reflexões a levassem inevitavelmente para a dona dos olhos azuis… Wednesday já não sabia se era o incômodo sem nome que sentia em todo o corpo o que atraía Enid sempre para seus pensamentos, o pensar em Enid o que provocava aquela sensação não exatamente desagradável, mas, inédita.

Era quase como se manter Enid ao alcance de seus olhos se tornasse uma necessidade da qual não conseguia escapar e o fato de se separarem iniciou aquele sintoma que parecia se tornar mais forte e mais irritante à medida que se afastavam.
As escolhas que fez naqueles poucos dias entre o desastre na cripta e a separação eram apenas um exemplo disso e toda vez que pensava nas noites compartilhadas e nas conversas que duravam horas, sempre posicionadas mais próximas uma da outra do que qualquer pessoa jamais esteve de Wednesday, a menina se sentia mais profundamente confusa.

E naquele momento, se tivesse coragem, reconheceria em voz alta que sentia falta de Enid.

“Converse com ela.” — sinalizou de novo a mão, batendo a unha do indicador no couro do encosto ao lado de Lurch.
Isso fez com que Wednesday girasse a cabeça e encarasse com olhos assassinos o interlocutor senciente.

— O que mais fizemos nesses dias todos antes da despedida, além de conversar? — disse ela, aborrecida, ainda com aquela voz indiferente e plana que usava quando era obrigada a tratar de assuntos que não estavam entre suas preferências. — Mais palavras deixaram minha boca nesses poucos dias com ela que em toda a minha vida! E mesmo que fosse esse meu desejo, a não ser que ela e eu tenhamos misteriosamente desenvolvido capacidades telepáticas e não fui informada, ou, se, no melhor dos cenários, ela recebeu de presente uma bola de cristal, coisa que, se tivesse acontecido, ela certamente não se privaria de me contar… acho improvável que qualquer interlocução aconteça antes de nos vermos novamente, no próximo semestre.

“Ligue para ela. Agora você tem um celular.” — sugeriu a mão senciente.

— Supondo que houvesse qualquer mínimo traço de desejo em mim para me render a essa tecnologia demoníaca, o que não é o caso, a possibilidade continuaria totalmente impraticável… — e, olhando com olhos semicerrados para a mão, no olhar a certeza vacilava e os pensamentos corriam em velocidade vertiginosa.

— No entanto… Imaginando que você seja versado nos rituais de magia negra que tornam esse dispositivo sugador de cérebros algo funcional, portanto, nada impede você de usar. — disse ela, a voz pingando ironia, enquanto tirava da mochila o aparelho recebido de Xavier.

(N.A. Como não faria sentido Xavier ter dado a ela um celular com número e pacote de dados, Wednesday não receberá a mensagem do perseguidor, quanto menos dará atenção a ele após recebê-lo e só o deixou na mochila porque suas malas já estavam fechadas e guardadas no porta-malas do automóvel.)

“Ele vem com jogos instalados?”

— Como, em nome de Lúcifer, você imagina que eu tenha resposta para isso?

“Você espera que eu ligue para Enid? Sabe que não precisa desses subterfúgios comigo…”

— Não distorça minhas palavras!

“Ligue para ela! Você sabe o número de Enid, eu sei o número dela… Por que se recusa a ligar?”

— Não sei colocar essa coisa infernal para funcionar! — respondeu Wednesday, frustrada e mais impaciente que o normal.

“Isso pode ser um problema.” — gesticulou a mão.

A menina e a mão se olharam por quase um minuto antes que ela suspirasse e se pronunciasse, na voz, um tom de derrota tão pesado, como se cada palavra que deixava sua boca a machucasse.

— Lurch, como minha mãe costuma dizer, seja um querido e, por gentileza, pare no posto de informação mais próximo. Precisamos colocar esse amontoado de vidro e plástico para funcionar.

Após algumas milhas, o silencioso mordomo/motorista saiu da estrada principal e lançou o carro por vias cada vez menos frequentadas e com menos manutenção, até que após pouco mais de uma hora, entrou numa estradinha de terra, algo pouco melhor que uma trilha, mergulhando cada vez mais profundamente numa floresta densa, úmida e escura.

— É óbvio que sendo um Addams, — pensou Wednesday com satisfação — ele jamais pensaria, primeiro, em parar numa banca de revistas ou loja de eletrônicos.

A ideia de se certificar de que Enid estaria bem, apesar de longe, a tranquilizou o suficiente para que pensar na loira ausente deixasse de ser algo tão pesado e, quando o carro parou, ela estava tão envolvida em memórias e novas emoções que demorou algum tempo para perceber.

Olhando pela janela, se deu conta de estarem em frente a uma cabana cercada de flores ainda mais estranhas que aquelas cultivadas por Morticia em sua estufa. As árvores em volta tinham enfeites pendurados, e um olhar mais atento mostrou se tratarem de ossos e pela anatomia, nem todos eram de animais silvestres, a não ser que aquele fêmur fosse de algum primata trazido ilegalmente para aquela parte do país.

Mais próximo da floresta estavam alguns brinquedos de parque, uma roda de metal e madeira que Wednesday não entendeu.

“Força centrífuga”, esclareceu Thing, “as crianças sentam na borda e giram”.

— Potencialmente desastroso… aceitável.

Os outros a vidente identificou por si e todos pareciam novos, o escorregador, inclusive, parecia de aço inox, de tanto que brilhava. Um corvo albino estava empoleirado no alto do balanço, um dos acentos se movendo por contra própria, seus olhos vermelhos observando atentamente os integrantes no interior do carro, grasnando alto e estridente quando Lurch saiu pela porta do motorista.

Wednesday olhava para a ave enquanto esperava impaciente que a porta fosse aberta para sua saída, hábito que deplorava sincera e profundamente, se considerando mais que apta a sair sozinha de um veículo, ainda mais, estacionado, e se preferia manter a boca fechada e esperar, apesar de tudo, era para não magoar o mordomo.

Ao firmar os pés na grama, sentiu a magia do lugar, já sentira aquilo antes, mas de forma infinitamente mais sutil, uma sensação que experimentara raras vezes, mas sempre a preenchia de espanto, curiosidade e atenção, era um formigamento que lhe subia pelas pernas, um calor diferente, como se seu corpo se aquecesse de dentro para fora.

Como na primeira vez que vivera aquilo, apesar dos avisos de sua mãe, mantivera a postura pouco cordial e desafiadora, conheceu as consequências e a partir de então, aceitou que era melhor amenizar suas palavras indelicadas e mostrar respeito, que sofrer com as humilhações imaginadas por seres verdadeiramente poderosos.

Quem quer que morasse ali, não era uma criatura menor e só Lúcifer saberia que tipo de humor mostraria a uma visita inesperada.

A lição recebida pela oportunidade em que não se deixou dobrar, foi uma semana sem conseguir falar ou mover mais que os olhos.

O morador devia ser muito mais poderoso que sua mãe para impregnar o lugar com magia daquela forma.

No segundo passo em direção à porta da frente, ouviu seu nome ser mencionado, sem conseguir distinguir de onde vinha.

“Wednesday Friday Addams…”

A voz era quase como aquelas de origem incorpórea que embalavam o sono da menina nos primeiros anos de sua vida, mas, ao mesmo tempo, soava firme e clara, ainda que parecesse vir de todas as direções.

— Sou eu! — disse a menina com voz firme, sem sair do lugar.

Mãozinha em seu ombro parecia vibrar, Lurch, parado ao lado do carro, dava a impressão de estar ainda mais imóvel que o seu jeito normal quando precisava esperar.

“Estava ansiosa por vê-la.”

— Ainda bem que alguém consegue saber com quem interagir. — respondeu com vestígios da ironia característica.

“Como está nossa adorável Morticia?” — a pergunta não parecia hostil, pelo contrário, mas Wednesday ainda estava em pé de guerra com a mãe.

— Não sou mensageira de minha mãe! Mostre-se! — disse, a voz afiada como lâmina, no entanto, a um gesto de Mãozinha em seu ombro, lembrou que a pessoa a quem Lurch os levara não era uma bruxinha dos filmes bobos de Enid, e, além disso, era ela quem buscava auxílio, portanto, completou, mais suave — Por favor, tenho perguntas.

Nesse momento uma brisa passou por ela, fazendo balançar a ponta de suas tranças e trazendo o aroma de flores, não durou muito, mas permaneceu por tempo o suficiente para despertar coisas que ela não entendia, o aroma tinha algo doce e infantil, ao mesmo tempo que parecia antigo e valioso como se fosse possível misturar essências ancestrais a balas de goma que Enid devotava de forma quase compulsiva… o perfume lembrava os braços protetores de Morticia, a gargalhada escandalosa de Gomez, a alegria alucinada do tio predileto e a onipresença de Lurch.

E o pensamento seguinte foi a constatação que a loba adoraria aquele perfume.

“Será que deixarei, um dia, de fazer comparações com as preferências e os gostos excêntricos de Enid quando me deparar com coisas novas? Parece que tudo agora, para minha eterna consternação, tem relação com aquela loba irritante…” pensou ela, desanimada.

E num piscar de olhos uma mulher negra de vasta, alta e magra, de idade indefinida, que poderia estar tanto com 30 como 50 anos, de longa cabeleira cacheada, estava há alguns passos, como se tivesse saído da floresta ou como se tivesse se materializado ali, olhando em seus olhos com um sorriso.

Para surpresa da pequena vidente, ao passar por Lurch a mulher parou, ergueu a mão e fez um carinho no rosto do homem que acompanhava os movimentos dela e ao ser tocado, fechou os olhos e inclinou a cabeça, quase como numa reverência.
A mulher usava calças de linho creme e camisa num tom de vermelho que parecia ondular, numa combinação de vários tons, como se o tecido respirasse e se movesse como se desafiasse as leis da física, nos pés a mulher usava sapatos delicados e fechados, combinando com a blusa, nas mãos vários anéis e nos pulsos correntes e pingentes delicados.

“Olá, Mãozinha!” — disse a mulher para a mão no ombro de Wednesday.

A mulher desviou os olhos para mirar as escuras íris de Wednesday e com um sorriso que lhe enrugava o nariz, exatamente como acontecia com Enid, disse rápido.

“Já falo com você, criança.”

E voltando a olhar para a mão, exclamou animada.

“Satisfação em revê-lo após tantos anos, querido! Como estão as coisas na mansão?”

A menina, irritada por ser preterida, apenas assistiu à mão, que respondeu com movimentos entusiasmados por tempo suficiente para contar uma pequena história, e mais uma vez Wednesday teve de se lembrar de que aquela bruxa merecia consideração, então, mordeu a língua e esperou.

No entanto, a conversa entre a mulher e a mão estava durando tempo demais e a menina, impaciente por natureza, estava já na eminência de jogá-lo de volta dentro do carro quando a mulher que sorria e comentava sobre acontecimentos narrados pelo interlocutor senciente, desviou os olhos para a menina e disse com aquele mesmo sorriso que parecia tanto com o de Enid.

“Aceita uma xícara de chá?”

Wednesday respondeu com um gesto de cabeça e começaram a andar em direção à casa, porém, diferente do que a menina imaginara, a bruxa a levou por um caminho lateral margeado por flores que ela nunca vira em direção aos fundos, onde uma mesa estava posta. Lurch, de alguma forma, já estava lá, mas Wednesday já no começo da infância desistira de tentar entender como ele se movimentava, sempre estando onde era necessário, então a surpresa ficou por conta de sua postura que, de alguma forma, parecia indicar que o homem estava feliz, apesar de suas expressões imutáveis, e quando se sentaram ele se pôs ao lado da mulher e serviu a ambas, recebendo da bruxa um carinho no braço.

E se aquilo despertou a curiosidade dela, qualquer pergunta nesse sentido teria de esperar, a curiosidade a conduzia para a coleta de informações mais importantes.

— Quem é a senhora? — perguntou a moreninha.

A mulher riu alto.

“Tive tantos nomes, minha querida… sua mãe me conhece como Anastasia.”

— E o que, exatamente, é a senhora?

“Há muito tempo deixei de ser algo, ou alguém… agora apenas estou. Nesse lugar, nessa época, nesta forma.”

— Minha mãe, com certeza, aprendeu a falar, usando palavras sem, no entanto, dizer coisa alguma, com a senhora… — disse a menina rabugenta, levando a xícara aos lábios e se surpreendendo com a riqueza de sabores que tomaram suas papilas de assalto e pelo prazer que nasceu em seu íntimo com a experiência

Anastasia riu novamente e disse: “Digamos que sempre estive em algum lugar na história do mundo, e continuarei aqui, enquanto o mundo tiver história.”

— Uma imortal! — pensou a menina com entusiasmo raro em sua personalidade.

A mulher à sua frente percebeu nas mudanças sutis em Wednesday que a menina chegara à conclusão correta, sorriu e levou a xícara aos lábios como se nada ali fosse algo que merecesse muita atenção.

Wednesday sempre ouvira falar dela, supostamente em sua origem eram um tipo de serafim específico que ao se recusar a voltar para a Cidade de Prata se tornou uma forma diferente de manifestação da natureza, misturando todas as características humanas, de todas as etnias, além das particularidades sobrenaturais, os poderes de todas as bruxas e as capacidades características de todas as criaturas místicas.

Segundo Morticia Anastasia era a portadora de todo o conhecimento do mundo, mas nem por isso menos humana e sujeita a sofrer com o peso de sua forma, por isso, há milênios abriu mão da imortalidade, mas, talvez como um castigo ou uma brincadeira de quem ordena as coisas, se tornou também uma espécie de fênix, pois ainda que cada existência, por mais extensa que fosse, inevitavelmente encontrasse um fim, sempre renascia e sempre em corpos femininos, e assim que completavam a idade de dez anos se tornavam conscientes de todas as vidas anteriores, com tudo que isso acarretava.
Já foi a causa de grandes catástrofes, talvez motivada pela rejeição de ser quem era, afinal, que criança sabe lidar com tamanha carga de conhecimento e poder?

Amou e foi amada por homens e mulheres, levou à loucura o mesmo número de pessoas que inspirou, foi retratada por grandes artistas e compositores, governou impérios, criou linguagens, auxiliou na descoberta de avanços tecnológicos que de outra forma demorariam séculos para chegar às pessoas e, há muito tempo, ninguém ouviu falar delas, apenas Morticia afirmando que sua existência se dava de fato.

Ainda segundo as histórias que sua mãe contava, a mulher à sua frente com aquele sorriso delicado, era implacável em sua ira, tendo causado grandes devastações quando incapaz de impedir atrocidades com as quais não concordava, provocou a morte de centenas de milhares de pessoas, ao mesmo tempo que retinha e guardava todo o conhecimento da humanidade, porém, suas tentativas de orientar aqueles que governavam o mundo não impediam que atrocidades inimagináveis acontecessem.

Talvez por isso sofria com a tendência à loucura, pois a responsabilidade como guardiã de tantos segredos e história poderia se tornar facilmente um peso grande demais para um invólucro tão frágil, e a partir de certa época escolheu não interferir na forma como as pessoas conduziam a história da humanidade, e desaparecia assim que seu poder florescia plenamente.
Mesmo tendo ouvido falar dela, Wednesday nunca imaginou que passasse de uma figura folclórica inventada por sua mãe para deixar as histórias antes de dormir mais impressionantes, e jamais imaginaria que Lurch a levaria para conhecer uma apenas para aprender a usar o celular.

Constrangida com a futilidade de sua demanda, tentou pensar em algo mais interessante para perguntar àquela mulher milenar na sua frente e que certamente possuía conhecimento sobre coisas mais importantes que o funcionamento de tecnologia fútil. Porém, enquanto se debatia em busca de algo que valesse ser comentado, a mulher do outro lado da mesa, após empurrar na direção da menina um prato com pequenos biscoitos em forma de folha de carvalho, na pequena mesa de madeira polida, estendeu a mão em sua direção, com a palma para cima, como se pedisse alguma coisa.

Respondendo ao olhar interrogativo de Wednesday, a mulher disse num sorriso com quem se diverte com a confusão do outro.

“Você parece ter questões de comunicação a resolver e, para isso, precisa aprender a manusear um certo aparelho… me dê.
Sente-se aqui ao meu lado, é mais fácil mostrar enquanto explico.”

— Mas… senhora… eu… a senhora… — Wednesday odiava gaguejar daquela forma, mas a situação justificava.

“Meu Lurch nunca teria trazido você aqui levianamente.”

— Seu… seu… como seu? — perguntou a menina, cada vez mais espantada, sem fazer questão de tentar esconder.

“Nunca te ocorreu perguntar o que ele é, de onde veio?”

Apesar de uma infinidade de perguntas sobre o mordomo ter-lhe ocorrido inúmeras vezes durante seus poucos anos, naquele momento Wednesday percebeu nunca tê-las formulado em voz alta para ninguém, simplesmente aceitando que ele era o mordomo que a ensinou a tocar violoncelo e a acompanhava ao órgão de tubo quando as tempestades faziam tremer as paredes de pedra da mansão, o homem com quem valsava quando a menina se sentia festiva e nos braços de quem dormiu vezes sem conta quando a cama parecia macia demais.

“Mary e eu nos conhecemos por causa dele…”

— Mary… Shelley? — perguntou Wednesday, quase gritando.

“Uma criança fascinante.”

Wednesday precisou de tempo e nova xícara de chá para tentar, sem conseguir, compreender aquilo.

— Por que o deu a nós? A família Addams, quero dizer.

“Ele não é algo para ser doado, Lurch escolheu servir a sua família.”

— Escolheu a nós? — perguntou, assombrada.

Afinal, por que alguém criado por uma imortal escolheria justamente sua família para servir?

Como uma criatura de origem tão magnífica escolhia servir?

“Como disse, fui muitas pessoas, estive em muitos lugares, tive muitos nomes, títulos e formas com o passar dos anos, criei esse querido quando as circunstâncias exigiam, porém, quando me tornei algo novo, num lugar onde ele não poderia me acompanhar, pedi para ficar com seus antepassados. Ele escolhe o que quer e vive por suas escolhas”

— E o que ele é, exatamente?

“Ele é o que você vê, o que você sente sobre ele, por isso o entende em sua forma tão peculiar de se comunicar. Ele escolhe quem o entende, e só permite tal privilégio àqueles que julga merecedores. Morticia, sempre tão intrometida, aquela bruxa, tão adorável… sabe muita coisa que caiu no esquecimento com o passar das gerações, mas sua mãe, apesar das opiniões que você tem dela, é muito mais coração que cérebro, e ainda assim é um dos cérebros mais impressionantes que conheço… e essa adorável mão que te acompanha também conhece parte de muitas histórias, mas solicitei a ele, silêncio… Perdão pelo trocadilho horrível, nunca fui boa com isso. E nem preciso dizer que sua discrição e cuidado seriam apreciados caso, um dia, pense ser uma boa ideia comentar sobre esse encontro com alguém. Mas o que importa é que sua família sempre me honrou através dele.” — A mulher se ergueu para ficar de frente para Lurch e, tomando suas mãos grandes nas dela, perguntou como uma mãe faria com um filho pequeno — “Não é, meu querido?”

O homem grande respondeu com um grunhido e então, Wednesday entendeu muito mais sobre ele naquele pequeno rosnado do que em todas as histórias que seus pais contavam.

“Além disso, — continuou a mulher com um sorriso na voz — ele tem autorização para exterminar completamente sua família, se eventualmente alguém o tratar com maldade. E eu o tomaria de volta.”

E mais que qualquer ameaça que já tivessem feito a ela ou à família, Wednesday entendeu que aquela não era uma a desafiar, sequer responder.

— Um detalhe bem de acordo com nossa filosofia. — disse a menina, honestamente impressionada.

“Meu Lurch sempre foi um sábio.” — disse a mulher, voltando para sua cadeira.

Beberam chá em silêncio por alguns minutos enquanto Wednesday pensava no absurdo de tudo aquilo.

Depois de tudo o que aprendera com Enid, uma suspeita surgiu em seus pensamentos.

— Você estava com saudade, Lurch, por isso nos trouxe aqui? — perguntou a menina num tom carinhoso que a pegou de surpresa, olhando nos olhos do mordomo.

E, se movimentando devagar, quase cerimonialmente, o homem se colocou atrás de Anastasia, pousou as mãos suavemente nos ombros da mulher e respondeu com outro grunhido que permaneceria para sempre na memória de Wednesday.

“Agora venha, querida, vamos colocar você a par de como funciona a tecnologia moderna. Devo dizer que podem ser muito úteis essas pequenas coisas, até eu ando bem conectada ultimamente.” — Dessa vez, Wednesday ficou sem saber se a mulher na sua frente falava sério ou se era apenas mais uma das brincadeiras que Anastasia não fazia questão de explicar — Se entendi direito, existe uma loba que neste momento está desconfortavelmente instalada num avião, se corroendo de ansiedade em saber como está sua Wends.”

Wednesday se assustou com a velocidade com que suas faces ficaram vermelhas e um calor incomum e tímido tomou conta de seu corpo, tanto que precisou de algum tempo para se recompor antes de responder um tanto mais ácida do que pretendia na frente daquela entidade que, se as histórias de sua mãe fossem verdadeiras, poderia reduzi-la a pó com um pensamento.

— Tal qual o Lurch, não sou algo a ser tomado para posse de qualquer um!

“Ninguém é, minha querida… ainda assim, quando acontece, nunca é para qualquer um. Mas isso é assunto para outro dia. Venha, sente-se aqui. Para começar, precisamos criar uma conta de e-mail para você.”
E pelos próximos minutos, Wednesday aprendeu o básico para lidar com aquele aparelho, foi informada que precisaria adquirir um número, um plano de dados e um carregador.

— Não sei como as pessoas passam o tempo todo com o rosto mergulhado nisso. Nem comecei a usar esse retângulo de plástico e já estou irritada em como pode algo tão pequeno ser tão inconveniente.

Depois de um tempo, enquanto Wednesday ainda se debatia na escolha de uma senha para o aparelho, a mulher fez surgir entre seus dedos um pequeno envelope quadrado de papel reciclado, não maior que a palma de sua mão, e estendeu à menina.

“Você faria a gentileza de entregar essas sementes para sua mãe, Wednesday? São plantas que criei recentemente, mas sinto que não terão lugar entre os jardins das pessoas… e tenho muito orgulho desse feito especialmente. Há tempos não criava nada que quisesse ver nas próximas vidas. As instruções serão enviadas no tempo certo, mas sua mãe entenderá.”

A menina tomou com reverência o pequeno quadrado e guardou-o no bolso do vestido.

Quando Lurch deu um passo atrás, Anastasia levantou e a menina imitou o gesto, entendendo que o encontro estava no fim.

Na despedida, Lurch abriu a porta para ela.

— Nos veremos novamente? — perguntou Wednesday, esperançosa.

“Provavelmente não, minha querida Wends. — disse ela, e sorriu ao perceber as faces da menina tomando um tom rosado com outra pessoa usando o apelido criado por Enid, pegou as mãos da vidente entre as suas e, vendo a decepção nos olhos da menina com a resposta, continuou — No entanto, isso pode ser providenciado, afinal, temos todo o tempo do mundo… quando acontecer, tomaremos chá novamente. Boa viagem, bela menina… sua mãe foi tão feliz escolhendo seu nome.”

— Se você tem um telefone, posso ter seu número? — Wednesday, extremamente constrangida com a pergunta, abaixou a cabeça, como se seus sapatos fossem a coisa mais interessante naquele momento.

“Ter, pequena Wednesday, é uma bifurcação a ser encarada com seriedade. Possuir é um gesto que as pessoas tornaram banal, mas você sabe… nada é tomado a não ser que o outro concorde em colocar nas suas mãos, seja uma sequência de números, uma semente, uma alma ou um coração. Você ainda é jovem, mas, tente olhar para o mundo e também para seus pais com menos contenção, veja o que sempre esteve a mostra além das demonstrações vexatórias de afeto. Confesso que até para mim eles parecem exagerados… porém, são autênticos, e isso é invejável. Quanto a um contato… há Lurch.”

A menina aceitou que não lhe cabia negociar e passou pela porta aberta pelo mordomo/motorista que fechou a porta em seguida, e quando ela olhou pela janela não havia sinal de Anastasia, sequer da casa ou os móveis de jardim onde estavam tomando chá há tão pouco tempo, e no lugar apenas uma pequena clareira, com troncos caídos e vegetação rasteira, e quando abaixou o vidro da janela, talvez imaginando que isso a ajudaria a ver o que não estava mais lá, o interior do carro foi invadido pelo mesmo aroma doce de flores e Wednesday murmurou para si.

— Enid jamais acreditará nisso…

Chapter 2: capítulo 2

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Ouvir um ser mitológico falar de sua mãe em termos tão carinhosos criou uma ruga entre os pensamentos de Wednesday. Ela baseava sua antipatia pela mãe na convicção de que a matriarca tentava moldá-la segundo seus preceitos, exigindo dela que seguisse seus passos. No entanto, a menina concordava que seus pais sempre permitiram que ela fosse exatamente como era, aceitando suas peculiaridades com naturalidade, até porque seres peculiares era o que não faltava na família Addams.

Wednesday se sentiu injustiçada por ocasião de sua prisão em Nevermore?

Sim!

Em sua concepção, ela agiu de forma contundente para sanar um problema que o sistema educacional estadunidense insistia em perpetuar, como se fizesse questão de copiar as obras ficcionais tão difundidas em todos os meios de entretenimento.

Porém, depois daqueles meses convivendo com as pessoas mais inesperadas e aprendendo sobre regras de convívio social que desconhecia (propositadamente ou não é irrelevante), passou a analisar a história sob nova perspectiva.

“São mudanças exigentes demais para aceitar tão facilmente. Quando estiver instalada em casa, refletirei melhor sobre as infelizes escolhas de minha mãe.”

A menina já achava que estava sendo condescendente demais, aceitando que a ausência da “sua loba”, palavras de Anastasia, não dela, fosse um incômodo com o qual ela preferia não conviver e concluiu que só isso era mais razoável que qualquer mudança esperada ou imaginada.

Portanto, quando percebeu Thing no ombro de Lurch, “conversando” com o motorista, se recostou, se mexeu até ficar confortável, fechou os olhos e, ainda pensando em como contar aquela história para sua colega de quarto, permitiu que os músculos de seu rosto formassem um pequeno sorriso e adormeceu.

Quando seus olhos abriram novamente, estavam passando pelo centro de uma cidade grande que Wednesday não se lembrava de ter atravessado na viagem para Nevermore. Foi quando lembrou do desvio… e foi quando algo muito estranho aconteceu.

Sabia que um encontro acontecera, com uma mulher negra, bonita, mas por mais que tentasse trazer para a consciência os detalhes ou mesmo o nome da mulher, conseguia lembrar apenas de ter aprendido a usar o celular, aquilo automaticamente a pôs em estado de alerta, imaginando ter sido drogada ou algo pior, mas nesse momento ouviu o som emitido por Lurch, aquela mistura de rosnado e gemido que tão sucintamente conseguia transmitir tanta coisa, e mesmo que não explicasse o que acontecera, foi o suficiente para a menina se acalmar, e contrariando as determinações mais profundamente enraizadas em sua natureza, se viu, simplesmente, deixando aquilo para depois.

Até porque, tinha assuntos mais importantes para cuidar.

Sem que lhe fosse orientado, mas ciente de que Wednesday jamais saberia para onde ir para resolver aquela questão, Lurch parou o Pontiac em frente a uma loja que mais parecia um pesadelo que faria chorar as mais corajosas crianças da família Addams, antes de incendiar o local.

O lugar era absurdamente laranja e branco, e onde Enid certamente se sentiria em casa, estava excessivamente iluminado, com mostruários expondo equipamento eletrônico de tipos e finalidades que a menina nem cogitou se interessar.

Caminhou até o balcão onde um homem de meia-idade esfregava o indicador na tela do celular, claramente entediado.

— Se até os escravos da tecnologia eventualmente se cansam desse dispositivo, — pensou ela, esperando ser notada — talvez ainda haja alguma esperança para a humanidade.

Quando o homem desviou os olhos do aparelho e notou a presença imóvel dela na sua frente, assustou-se como acontecia com quase todos os “normais” quando se deparavam com Wednesday pela primeira vez, limpou a garganta, olhou para a porta da frente, como se calculasse uma rota de fuga, e voltou a olhar para a menina que não piscava.

“Posso ajudá-la?” — perguntou o homem, claramente desconfortável.

— Preciso de um número de telefone, residente em Washington, New Jersey. — disse ela no seu tom de voz frio, causando uma onda de arrepios no homem à sua frente.

“Algum modelo específico, o número de telefone de alguém?” — perguntou ele, com voz aguda e engolindo em seco.

Ela precisou de um pensamento para entender a pergunta. 

“Ele está oferecendo um aparelho ou o contato de alguém, mas… considerando que estou com o próprio aparelho na mão e plenamente à vista do infeliz, por que, diabos, precisaria do telefone de alguém?” 

Porém, logo tentou imaginar como funcionava o raciocínio do exemplar medíocre na sua frente e lembrando de alguma coisa relacionada ao assunto ouvido de alguma conversa de Enid com as pessoas decadentes com quem a loira insistia em interagir, respondeu, tentando não se exasperar.

— Um “chip” — disse ela, como se a palavra fosse pessoalmente ofensiva — e um valor em dados de internet para uso imediato.

“Gostaria de escolher o número?”

“As complicações dessa operação não têm fim, pelo amor de Darwin…” pensou ela, extremamente irritada.

— Me surpreenda. — disse num tom de voz repleto de sarcasmo.

E, para a inesperada e real surpresa de Wednesday, ela gostou do conjunto de números quando o viu no verso do cartão, predominantemente uma sequência de números 6, 1 e 3. A menina escolheu terminar de aprontar o telefone quanto antes e acabar de vez com aquele tormento imediatamente, e ainda no interior da loja.

Com as mãos sobre o balcão, inseriu o pequeno cartão onde lhe fora indicado, mesmo que não se lembrasse direito por quem, mas sabia que alguém tinha dito como proceder.

O vendedor, talvez mais acostumado com a presença assustadora da menina, e provavelmente, devido a experiência percebeu que ela lidava com o primeiro telefone da sua vida, e se ofereceu para tirar uma foto para a menina usar no perfil, Wednesday aceitou, até por não saber como faria a tão famigerada “self” e ficou em pé e imóvel a frente de uma parede sem prateleiras, se permitiu fotografar e depois disso o homem ainda indicou um canto com poltronas, dizendo que se ela quisesse poderia inclusive tomar uma xícara de café.

E qual não foi a surpresa de Wednesday ao constatar que a poltrona era razoavelmente confortável, de encosto reto e dura, as pernas da menina balançavam no ar e lembrava muito a cadeira elétrica que Fester roubara de alguma prisão e instalara na mansão.

Ao oferecimento feito em relação ao café, percebendo se tratar de uma cafeteira de cápsulas, a menina dispensou com um gesto seco.

Uma vez confortavelmente instalada, ligou o celular, conferiu o número na tela, baixou o aplicativo de mensagens cujo logotipo se lembrava de ser o mesmo que Enid usava, digitou o telefone de Enid, que parecia gravado em sua memória a ferro e fogo, como contato, e começou a escrever, achando uma grata surpresa que imitar a forma como Enid digitava, usando os polegares, tornava a tarefa mais rápida, ainda que os labirintos que foi obrigada a percorrer a procura de acentos e pontos a tenha irritado mais que as tentativas de afeto de seus pais.

 

Wednesday: Olá, Enid.

Sou eu, Wednesday Addams.

Espero que esta a encontre em pleno uso de suas faculdades.

Para meu imponderável desgosto, os rumos que fomos obrigadas a tomar tão inesperadamente me causam nova categoria de irritação, uma que não pretendo prolongar.

Anseio em me assegurar sobre sua integridade e imaginá-la enjaulada num tubo de metal a milhas acima do chão é extremamente desagradável.

Se você ousar sofrer o menor acidente, mesmo um corte com uma miserável folha de papel, saiba que não pouparei minha indignação e a direcionarei implacavelmente ao objeto ou pessoa que lhe trouxer mágoa.

Esclarecendo a pergunta óbvia, o misterioso meio de comunicação usado para o envio desta missiva, fui presenteada com esse aparelho infernal por Xavier, que, sendo o covarde sem espinha que é, correu antes que pudesse empurrar por sua garganta abaixo.

Não tenho o menor desejo de manter contato com ele ou com qualquer pessoa.

Você continua a única exceção.

Não quero ameaçá-la, Enid, mas preciso lembrá-la de que, se tem amor nas representações ridículas da fauna em espuma e tecido colorido que enfeitam seu lado do quarto, essa conversa não estará à vista de outros olhos.

 

Sua, Wednesday Friday Addams.

 

 

Apertando o botão de enviar, pressionou o botão lateral que faria apagar a tela e devolveu o aparelho ao seu túmulo no interior da mochila.

Voltou para junto do homem que a olhava mais com curiosidade do que medo e solicitou.

— Um carregador, por favor.

Dispensando a bolsa plástica terrivelmente laranja com o nome da loja, colocou a caixa na mochila, tirou o cartão e finalizou a transação.

— Um último favor, — disse ela, tirando o celular mais uma vez da mochila — como faço para que esse equipamento não me irrite com seus barulhos de mal-gosto?

O homem, claramente mais inteligente que a média, ainda do outro lado do balcão e sem tentar se aproximar, ditou as orientações até que a menina à sua frente alcançasse o objetivo pretendido. Wednesday agradeceu e deixou a loja.

 

De novo na calçada, enquanto andava Lurch abriu a porta para que ela ocupasse o banco traseiro, uma vez sentada e ao depositar a mochila do seu lado, se deparou com uma bolsa, retangular, de papel bonito pousada no banco em frente, que tinha certeza, não estava lá quando saíra do veículo, e tomada pela curiosidade, cesta que o mordomo/motorista não permitiria que nada perigoso fosse inserido no interior do veículo, trouxe para seu colo e se pôs a explorar o que havia o que ela trazia e surpresa tirou de lá uma pequena caixa de madeira clara, com bonitos entalhes de runas na tampa que ao ser aberta mostrou pequenos biscoitos em formato de folha de carvalho, o próximo item retirado, uma lata branca e com a palavra chá escrita a mão numa etiqueta pequena, que ao ser aberta mostrou uma variedade de folhas secas e moídas que exalavam odor suave e rico.

— Anastasia! — exclamou ela com a memória clara dos eventos de horas antes. — Este é o chá que Anastasia ofereceu, Lurch? — perguntou, olhando para o motorista pelo retrovisor.

Este respondeu com seu gemido característico e, ainda olhando para os olhos da menina pelo espelho retrovisor, o motorista assentiu discretamente, vendo outro raro sorriso surgir no rosto da menina, que, sem se ofender, deu-se conta de como a Imortal brincava com suas memórias.

— Essa bruxa tem um senso de humor muito estranho. Concorda, Lurch? — perguntou ela, ainda olhando pelo retrovisor e recebendo um pequeno grunhido em resposta.

Imediatamente se sentiu possessiva em relação ao presente e decidiu que guardaria para ocasiões especiais.

Percebendo que a bolsa ainda parecia pesada, voltou a sondar seu interior e sua mão voltou com um pequeno frasco, sem rótulo, claramente artesanal, fino e antigo. O líquido armazenado de alguma forma dava a impressão, simultaneamente, de ser opaco e tão transparente quanto a água e, dependendo do movimento, absorvia a luz ou refletia as cores do arco-íris. Ao soltar a pequena rolha que o mantinha fechado, o interior do veículo foi tomado suavemente pelo aroma doce de flores.

Wednesday foi acometida por sensações novas, todas relacionadas a Enid, com tamanha intensidade e julgando que aquele desespero estava relacionado aos poderes mágicos que a mulher que a presenteara certamente infundira na fragrância. Com algo muito parecido com medo, fechou imediatamente o frasco.

Nem a preocupação que sentia em relação à sua colega de quarto era natural para ela, como também não era a ansiedade que se juntou à mistura, formando um quadro que ela não entendia, mas que parecia com o que os livros descreviam como saudade, diferindo apenas na força como apertava o peito da vidente, que de repente, tirou o celular da mochila, e para sua surpresa, suas mãos estavam ligeiramente trêmulas, e deixou-o com a tela voltada para cima sobre suas pernas, com medo de se distrair com algo e não perceber caso Enid respondesse à mensagem.

Percebendo o descontrole que a acometia, respirou fundo de olhos fechados até que seu coração voltasse ao ritmo lento de sempre e, como se não conseguisse se controlar, pois tudo parecia obrigá-la a voltar seus pensamentos para Enid, decidiu que ofereceria o perfume como presente para sua loba.

Os biscoitos, também… talvez.

Para sua mãe já recebera as sementes, mas não descartava a possibilidade de dividir com ela também o chá. Surpreendendo-se com a gentileza com que a ideia invadiu seus pensamentos, voltou a recordar as palavras de Anastasia.

 

“A bruxa e a mamãe claramente têm uma relação — refletiu enquanto o veículo se punha em movimento — e considerando as palavras da imortal, talvez nem todo o conhecimento e experiência vividos sejam suficientes para dissolver a imaturidade inerente à minha idade, e talvez… talvez esse detalhe tenha me levado a exagerar na forma como interpretei os defeitos de minha mãe.”

Wednesday nunca duvidara do amor que recebia de todos os membros da família, independente da sua falta de jeito de retribuir ou mesmo acreditar que sentia o mesmo por eles, e se as opiniões dela e de Morticia diferenciavam em vários pontos, essas diferenças estavam baseadas justamente no fato de nunca ter aceitado que sua mãe insistisse em tentar orientá-la quando a menina claramente preferia acreditar ter conhecimento o bastante para navegar pela vida sozinha, porém o fato de não entender como duas pessoas conseguiam viver tanto tempo tão próximas como o que acontecia com seus pais era o indício definitivo para provar que, ainda que o assunto girasse em torno de relações humanas e que, até essa perspectiva ser mudada por sua colega de quarto, perceptível no desconforto adquirido com sua ausência, ela nunca imaginou que se interessaria por tal desenvolvimento.

Se até uma Imortal considerava a forma como seus pais pareciam excessivamente românticos e codependentes, para Wednesday, analisando e comparando com todas as outras pessoas que insistiam em formar casais que ela conhecia, aquilo não era, de forma alguma, normal, mas se havia algo ali a ser aprendido, ela pretendia descobrir o que seus pais escondiam embaixo de tanta devoção e gestos vergonhosos.

No entanto, ainda sentindo os últimos vestígios do perfume, sua atenção foi desviada para o celular que vibrava em sua perna.



*** .. ***

 

Enid estava frustrada.

A interrupção do semestre não poderia ter vindo em pior momento.

Parecia que nada com ela acontecia com a mesma naturalidade como imaginava ser na vida das outras pessoas.

— Por que tudo precisa ser tão complicado? — pensou ela, fechando os olhos.

Como se o fato de Wednesday, depois do primeiro abraço, ter se mostrado muito mais acessível, contrariando regras que para a loira pareciam impossíveis de mudar, não fosse mais que o suficiente para acreditar que sua colega de quarto fora trocada por um metamorfo, para piorar (ou melhorar, dependendo do grau de sinceridade que a loira estivesse disposta a encarar as coisas), elas conversaram.

Na verdade, conversaram muito mais durante os dias que antecederam a volta para casa do que em todos os meses que compartilharam o mesmo quarto. Enid estava irremediavel e absolutamente encantada com tudo o que aquilo significava, não só com a proximidade, com o contato, e com as histórias divididas, ela nem imaginava que Wednesday conseguisse falar tanto, e queria mais, queria se costurar na lateral da vidente e acompanhá-la para todo lado. Por isso, aquela volta para casa estava acabando com ela.

E se isso não fosse o bastante para deixá-la confusa, a transformação trouxe mudanças na sua relação com sua loba, coisas que nunca ouvira falar nem em casa e nem na escola. Desejava poder se esconder no seu quarto de dormitório, talvez conversar com outros “peles” ou pesquisar em algum livro sobre as coisas que aconteciam com ela.

Ela entendera que se transformar em lobisomem era algo que aconteceria na noite de lua cheia, ela sofreria algumas alterações provocadas pela primeira mudança, durante alguns dias conviveria com as dores normais, com o crescimento normal da segunda puberdade, e tanto o crescimento parariam em algum momento da mesma forma como as dores melhorariam a medida que as transformações se repetissem até se tornar algo trivial como era na vida de todo lobisomem e que, basicamente, era algo com o qual só teria de se preocupar novamente, no próximo mês.

Enid queria, apenas uma vez na vida, se enganar com a possibilidade de ser uma pessoa (ou lobisomem) ‘comum’, sem tantas perguntas sem respostas, sem tanto drama familiar, sem se preocupar que ser uma loba fosse algo mais que pertencer a uma matilha e seguir as tradições, encontrar um parceiro, ter uma vida razoavelmente normal e, se tudo desse certo, criar filhos hipotéticos longe de São Francisco e o mais diferente possível de como fora criada pelos pais.

E mais que tudo, o que a loira desejava do fundo do coração, era ter alguns dias para se preparar e talvez entender alguma coisa antes de confrontar sua mãe e suas eternas críticas.

Por sorte, mesmo que voar não fosse corriqueiro para ela, Enid já se acostumara com a tensão pré-decolagem e os abafadores de ruído resolviam seu incômodo com o barulho da aeronave. 

Ela sabia, ainda que não soubesse como ou o que, que algo estava muito errado naquela história, na sua história, tinha coisas demais em sua cabeça para ter de lidar também com mais ansiedade, se preocupando com o meio de transporte que a devolveria às garras de Ester.

Se tivesse tido tempo encontraria alguém com quem conversar, alguém com experiência no assunto, mas os dias que se seguiram o incidente macabro encabeçado pela professora de botânica preconceituosa e claramente louca, foram igualmente insanos, com a equipe de emergência médica cuidando dos feridos, depois o funeral da diretora Weems, policiais interrogando todo mundo, professores e alunos correndo pela escola fechando o que precisava ser fechado, o diretor interino preparando o lugar para as reformas necessárias e no meio disso, ela tinha apenas uma morena de tranças que parecia se encantar com cada episódio vergonhoso em que a loira perdia o controle e alguma parte do seu corpo se voltava contra ela.

Enid passou a sofrer transformações parciais durante os dias entre a catástrofe Crarckstone e o momento em que se despediu, muito contrariada, de seus amigos e de sua colega de quarto assustadora, mas que, por mais inesperado que fosse, era a única pessoa com a estranha capacidade de acalmá-la.

Na verdade, naqueles dias, apenas Wednesday conseguia mantê-la sob controle em muitos sentidos, mesmo que não fizesse nada, somente sua presença, e naquele momento, lembrança, mantinha Enid calma, se é que o termo se aplicava.

Durante aqueles dias se deparou não apenas com garras que saltavam em momentos de ansiedade, ou quando tinha pesadelos relembrando a noite em que lutara com o Hyde, eram tufos de pelos que surgiam em suas costas, um braço inteiro se moldando na forma de lobo, rugidos profundos e ameaçadores fora de hora, quase sempre quando alguém se aproximava rápido demais dela ou de Wednesday, e por isso naquele momento estava vestida, enquanto se acomodava na poltrona do avião, no maior moletom que possuia, mesmo sabendo que ele pouco serviria se algo mais complicado acontecesse.

A noite de lua cheia já passara há dias, há mais de uma semana!

Não era para aquilo estar acontecendo.

E, se não fosse suficiente, sentia uma falta quase dolorosa de Wednesday.

Durante aqueles últimos dias, sua colega de quarto parecia onipresente, tentando preencher todas as lacunas para que Enid se sentisse confortável. Ela tinha consciência de que tudo o que a vidente fizera para que tudo fosse menos angustiante para a loira, não apenas com sua presença tranquilizadora, mas também mostrando uma paciência infinita para ouvir as perguntas e lamúrias sem fim da loba, inclusive, consultou Morticia e a avó em busca de um elixir calmante que pudesse ser destilado no dormitório para que a Enid dormisse melhor e, naquele instante, voasse sem tantas preocupações. Ela aceitou porque, apesar das dores excruciantes resultantes da transformação em loba e da luta contra o hyde, o elixir realmente ajudou a dormir sem pesadelos. E também porque sabia que a última coisa que precisava era se transformar em loba durante o voo de seis horas.

Por sorte, o avião disponibilizava porta para carregamento e wi-fi e ela se distraiu durante a primeira hora vendo vídeos bobos no celular, trocando mensagens com as colegas de Nevermore e tentando, sem sucesso, não pensar nas tantas coisas que faziam seu coração bater mais rápido.

Eram muitas perguntas sem resposta para que ela se sentisse tranquila.

Por que, sem pensar, saiu correndo floresta adentro, mesmo sabendo que quase nada poderia fazer, principalmente na sua forma humana e sem a menor ideia de que se transformaria?

Se sua loba não tivesse saído para brincar, o que teria acontecido?

Seriam duas adolescentes mortas na floresta enquanto o resto da escola queimava?

Onde, pelo inferno, encontrou coragem para enfrentar um Hyde, pelo amor de Deus?

Como ela achou que poderia lutar com uma criatura que, se não era muito maior e nem muito mais forte, com certeza tinha mais experiência e habilidade de luta, mas, principalmente, onde sua loba estava com a cabeça enfrentando era uma criatura sem consciência ou constrangimento em matar?

Mas, tudo isso perdia o brilho quando confrontava a pergunta definitiva.

Por que se sentia tão mal longe de Wednesday?

Era uma sensação de mal-estar indefinido que parecia aumentar à medida que a distância entre elas também aumentava.

Enid ainda não fizera essa relação, não supunha que a sensação de estar ficando doente tinha algo a ver com sua colega de quarto, pelo menos até perceber a notificação de recebimento de uma mensagem de um número desconhecido.

Abriu a mensagem, riu ao ver a foto de sua colega de quarto carrancuda num fundo laranja e, à medida que lia, seu coração traiçoeiro voltava a palpitar ainda mais intensamente.

Leu novamente a mensagem, mais devagar, mas ainda precisou repassá-la duas outras vezes para assimilar o sentido das palavras e aceitar que de fato aquilo era verdade.

Não demorou para começar a digitar a resposta.

 

Enid: Não acredito que seu nome do meio é Friday!!! 😱

OMG!!! 🖤

Você se rendeu à tecnologia para falar comigo!!! 😍

Estou me sentindo a pessoa mais importante do mundo!

Por que você escreve como se isso fosse uma carta?

Acho que vou chorar… 😭 Sério… você não faz ideia de como estou sentindo sua falta.

Já chegou em casa?

Quem te ajudou a usar o celular?

 

Sem esperar por resposta, mandou outra mensagem.

 

Enid: Sua?

Agora você é minha, Wends? 🥰

Tô brincando!!!

Por favor, por favor, por favor… me faça companhia.

Estou enlouquecendo aqui.

E não ameace minhas pelúcias!

 

Assim que a mensagem foi enviada, um balão indicativo de que Wednesday estava escrevendo surgiu na parte superior da tela.

 

Depois de dois minutos, Enid, não suportando a espera, voltou a digitar.

 

Enid: Wends!

Escreva mensagens rápidas e esqueça a gramática um pouco, pelo amor de Deus!!

Ou podemos fazer uma chamada de vídeo!
Por favorzinho…

 

Apesar do apelo, a loira teve de esperar angustiantes cinco minutos para receber uma resposta.

 

Wednesday: Querida Enid.

O fato de me sujeitar ao uso desse dispositivo sugador de cérebros não significa que abri mão definitivamente da minha personalidade ou princípios.

Quanto à lição para uso adequado desse pedaço de plástico, é uma história que merece ser compartilhada pessoalmente.

Como disse, recebi esse objeto infernal como presente ofertado por Xavier, porém, antes de poder usá-lo efetivamente, fui obrigada a me embrenhar pelos labirintos tecnológicos numa saga épica para recolher as informações mínimas para tal, como, ainda assim, faltavam elementos essenciais, Lurch nos levou a uma loja deplorável numa cidade horrível para a plena concretização do intuito.

E sim, se me rendi ao ingresso nessa nojenta fantasia virtual, foi por você, pois igualmente, sua ausência me incomoda muito mais do que imaginei que uma pessoa fosse capaz fora da minha família.

Estamos no último terço da viagem, o desvio para aprender a colocar em funcionamento esse aparelho infernal trouxe inevitável atraso para minhas expectativas, calculo que em uma hora e meia, aproximadamente, estarei na mansão.

Mensagens rápidas, como você chama, não atendem aos requisitos básicos de comunicação aceitável. Torturar a gramática nunca é uma boa ideia, o mundo e as pessoas já são confusos demais para ter um Addams contribuindo para torná-lo ainda menos habitável.

Seus bichos são alvos vulneráveis, imagino o que aconteceria com aquele amontoado se apenas um deles, posicionado estrategicamente, entrasse em combustão espontânea.

Quanto a chamadas de vídeo, a graduação a que fui submetida não trouxe ensinamentos profundos o suficiente para conceber a que se refere.

Em relação ao pronome possessivo, parece explicativo por si, não abuse da minha indulgência.

 

Sua, Wednesday Friday Addams.

 

Enid: Ah, Wends, você é um amor…

Como vou sobreviver meses longe de você?

 

Wednesday: Você interpreta minha tentativa de comunicação com gentileza, por favor, não me ofenda. 

Normalmente, apreciaria novas modalidades de tortura, mas dessa vez a distância, particularmente, surge como um exemplo cuja existência desconhecia e que dispenso totalmente ser submetida.

Considerando que seu heroísmo admirável resultou na continuidade da minha existência nesse plano, imagino que uma visita para os agradecimentos adequados não esteja fora de questão. Na verdade, se conheço bem meus pais, a probabilidade de que façam questão de que você receba as devidas homenagens é praticamente certa.

Se não me engano, você comentou que a cidade onde reside, ainda que litorânea e ensolarada, oferece neblina e chuva, além de um presídio que, muito embora as pessoas prefiram ignorar, é densamente assombrado.

Sem dúvida, além do alívio para o incômodo causado por sua ausência, são atrativos que me interessam.

 

Sua, Wednesday Friday Addams.

 

Enid: Ah, Wends… 🥹 é sério… queria tanto que você estivesse aqui… estou surtando! 🚑 E nesses últimos dias só você consegue me acalmar… não quero ser a amiga por interesse, mas quanto mais me distancio de você, tudo parece mais pesado e me sinto meio doente… não sei explicar, mas é um desânimo e uma tristeza que nunca senti antes. 🥲

 

Depois disso, tomada pela pressa de contar de uma vez tudo que a incomodava, escreveu rápido e até esqueceu de colocar seus adoráveis emojis.

 

Enid: Além disso, todo mundo sabe que os lobisomens não se transformam em lua de sangue, então… por que eu consegui? Nenhum “pele” é tão grande como você disse que eu era já na primeira vez, os ‘normais’ crescem à medida que vão se transformando, até porque isso acontece quando deixam de ser crianças. E você viu o quanto cresci? Nenhuma roupa me serve… e não sei como resolver isso. Poderia costurar alguma coisa, mas… ah, Wends… o que será de mim?

E, sem esperar por resposta, continuou escrevendo como se a vida dela dependesse disso.

Enid: Sem contar que você viu que tenho tido esses surtos de transformação aos pedaços… mas o pior é que não quero lidar com minha mãe… ela vai encontrar um novo jeito de acabar comigo e estou tão sensível, com tanto medo e ela é tão… cruel.

 

A resposta veio excepcionalmente rápida dessa vez e sem assinatura.

 

Wednesday: Então não o faça.

Fique comigo, na minha casa.

Também tenho me sentido acometida pelos mesmos sintomas, tanto que voluntariamente estou aqui copiando seu comportamento, que ainda considero deplorável, mas, em vista dos fatos, não mais inadmissível, afinal, estou grudada nessa tela, por isso sugeri vê-la em sua casa ou recebê-la para a minha.

 

A loira teve de ler a mensagem várias vezes até entender o significado das palavras, mas quando conseguiu, quase pulou na poltrona, assustando uma senhora a seu lado.

 

Enid: Eu adoraria!!! OMG!!! 😍 Você manteria os fantasmas comportados? 👻

 

Wednesday: Certamente, a entidade mais assustadora lá em casa sou eu!

Meus pais, contando com sua presença e receptividade para demonstrações de afeto, terão outra vítima a quem direcionar suas inconveniências e me dispensarão de ser afogada em carinho e preocupações desnecessárias.

Além do mais, House andava meio entediada com a perspectiva da minha saída, por ocasião da ida para Nevermore, e estamos há muito tempo sem receber hóspedes coloridos.

Tenho comigo que ela apreciará bastante suas cores iluminando os corredores.

Será uma satisfação apresentá-la a Ichabod.

Sinceramente, suspeito que até mesmo os fantasmas se encantariam por você.

Enid, este dispositivo demoníaco está tentando me dizer alguma coisa, o brilho da tela diminui consideravelmente e tem um número indicando 3% de alguma coisa.

 

Sua, Wednesday Friday Addams.

 

A loira não cansava de se impressionar com o quanto sua amiga parecia ter sempre novidades para enriquecer as conversas delas e riu ao notar o quanto detalhes simples para quem usava o celular eram estranhos a ela.

 

Enid: Sua bateria está acabando, Wends.

Seus pais aceitariam me receber assim, sem consulta?

Como assim, sua casa tem opinião?

Quem é Ichabod?

Wends, não me diga que sua casa é assombrada!

 

Como Enid imaginava, as perguntas não foram respondidas.

Suspirou e, enquanto tentava entender como aquilo, Wednesday usando um celular, era uma coisa possível naquele universo, ela até pensou em mandar outra mensagem explicando que não precisava fazer o carregamento completo da bateria, como acontecia com os celulares antigos, mas duvidava que sua amiga fosse voltar a usar o celular antes de chegar em casa.

Chapter 3: capítulo 3

Chapter Text

Depois da luta com o hyde e do abraço, Wednesday e Enid foram levadas à enfermaria, onde foram lavadas, tratadas e vestidas com o uniforme de educação física. Sua colega de quarto apareceu com o braço na tipoia e uma touca branca na cabeça, a tipoia fazia sentido, mas a touca foi um detalhe que Enid não conseguia explicar, mas dentro de todas as estranhezas que aconteceram naquele dia, ela nem deu muita atenção.

Enid imaginou que passariam a noite ali, mas quando Wednesday fez questão de voltar para o quarto, ela insistiu com tanta teimosia em acompanhá-la que Yoko, Divina, Bianca e Ajax, que estavam no corredor, esperando por notícias, foram chamados para ajudá-las a subir as escadas para o dormitório onde Wednesday se escondeu no closet com uma mala e de onde voltou vestindo seu pijama preto de seda e ainda com a touca escondendo seus cabelos.

Apesar das dores no corpo todo (dias depois a loira diria que naquele momento até seus pensamentos doíam) e do cansaço, Enid sabia que não conseguiria dormir enquanto não baixasse a adrenalina que ainda corria como um rio em seu sangue, e deitada, olhando para o teto, repassava todos os eventos da noite, tremendo ao imaginar que o resultado poderia ser bem diferente das duas inteiras e parcialmente bem, deitadas nas respectivas camas.

“Está acordada?” arriscou a loira, olhando para o outro lado do quarto.

“Sim.” respondeu Wednesday num sussurro.

“Podemos conversar um pouco?”

Contrariando tudo o que Enid poderia imaginar, de repente sentiu alguém levantando a ponta do edredom que a cobria e um corpo deitando ao seu lado na cama estreita, e ela, assombrada demais para pensar quanto menos questionar se acomodou mais para perto da parede para sua colega de quarto caber ali.

Wednesday assumiu a posição como sempre dormia, parecendo um cadáver, mas Enid foi a primeira a quebrar o silêncio.

A loba soube instantaneamente que se estivesse em seu estado “normal”, estaria surtando com a ousadia de sua colega de quarto, mas naquele momento nada em sua vida estava nem perto do que ela consideraria normal.

“Wends… sua alergia…” — foi a única coisa que conseguiu dizer.

Wednesday ficou em silêncio por quase um minuto antes de responder.

“Agradeço por salvar minha vida, Enid… e peço, — disse a morena, olhando fixamente para o teto — humildemente, que me perdoe por deixá-la sozinha com aquele monstro infame.”

“Wednesday, estou preocupada… não quero que sua carne caia de seus ossos.”

“Aparentemente, você é uma exceção também quanto a esse detalhe.”

Enid olhou para sua colega e, como viu que nenhuma reação surgiu na pouca pele à mostra, acreditou nas palavras da outra e relaxou, deixando escapar um suspiro enquanto voltava a se ajeitar nos travesseiros.

“Sinceramente, não sabia o que estava fazendo… a ideia de que alguém te machucasse me pareceu tão errada que agi antes de pensar… acho que se tivesse pensado, por um segundo, teria fugido. Não tenho sua coragem…”

“Muito pelo contrário. — disse, virando a cabeça para olhar nos olhos azuis que a encaravam com tanta intensidade — Sua bravura é admirável, bem como sua lealdade e força. Foi uma imensa satisfação vê-la em toda a sua glória. Estou bastante satisfeita que tenhamos sobrevivido para narrar essa história.”

“Como eu estava?”

“Imensa, provavelmente dois metros e meio de músculos e fúria, sua cobertura é um tom entre creme e a cor de páginas antigas, suas cores deploráveis estavam presentes, e a forma como me defendeu foi… de tirar o fôlego.”

O silêncio se instalou entre elas por um tempo, Wednesday sentia, mais que sabia, que Enid queria falar de algo específico. Mesmo que não reconhecesse, se acostumara com sua colega de quarto sendo animada e falante, e perceber o surgimento daquela versão silenciosa parecia estranho. Aprendera há muito tempo a não iniciar as conversas quando não fosse absolutamente necessário, mas… era Enid.

“Não está entre minhas habilidades ler o ambiente quando desprovido de violência ou as pessoas que se mostram sem más intenções, mas até eu percebo que algo te incomoda profundamente. Se quiser falar, ouvirei… caso não queira, continuarei aqui em silêncio.”

“Gostaria de não ter de voltar para casa, agora… ou nunca…”

“Supus que as matilhas tinham a ligação entre seus membros como um princípio básico para a perpetuação da linhagem.”

“É, mas… Você deve achar que é muito bobo da minha parte estar com tanto medo de voltar para casa.” — perguntou a loira, olhando para o teto.

“Famílias são o primeiro castigo ao qual temos de sobreviver”, respondeu Wednesday. “Ainda que as nossas sejam muito diferentes entre si, suponho que nunca seja fácil ter personalidade em meio a um grupo que não se esforça para te entender.”

“Até diria que trocaria de lugar com você,” disse Enid, “mas ninguém, você menos ainda, merece minha mãe… na verdade, todos lá em casa são difíceis. Meus pais reclamam de tudo que faço ou não faço. Mentira, minha mãe reclama, meu pai não abre a boca para nada, parece que nem está lá. E meus irmãos, se não estão me zoando, me ignoram… então… não sei…”

“Pois seria uma honra passar algum tempo no seu lugar, pelo que pude observar de sua matilha ridícula, não precisaria mais que uma semana para destruir o espírito e o corpo de cada um dos seus familiares.”

Novamente, o silêncio as envolveu e, mais uma vez, Wednesday cuidou de interrompê-lo.

“Minha família se desenvolveu cercada pela própria definição de honra e tradições. Além das maldições, obviamente. Para nós, é importante honrar a palavra e a escolha. Algumas maldições fazem parte da vida de um Addams, outras você pode procurar, pode evitá-las, mas crescemos cientes de que como Addams, devemos sempre estar prontos para enfrentar aquelas que nos são apresentadas como presente ou castigo, e quanto às tradições, sempre houve liberdade para interpretação.”

“Fale mais das maldições, por favor, Willa…”

“Há um cofre inteiro em um dos porões da mansão reservado para guardar objetos amaldiçoados”, respondeu a morena, se voltando para ficarem novamente frente a frente. “Um dos hobbies do meu pai é procurar por elas e colecioná-las. Em mapas e em muitos livros constam detalhes de lugares a serem evitados e rituais para livrar a vítima que porventura acabe amaldiçoada. A maioria é de tempos antigos, quando tudo era mais simples e mais difícil ao mesmo tempo. A ignorância é um tormento para todos, sobrenaturais ou não, e benção apenas para a massa que não se importa em ser tratada como sacrifício. Minha família foi quase dizimada mais de uma vez, muitas maldições vêm dessa época, e pessoalmente considero que as mais antigas são mais inteligentes e discretas. A maioria das maldições, bem como todas as religiões, se valem do medo que as pessoas aprendem a sentir daquilo que não conhecem, e da mesma forma que as religiões pregam o medo ao mesmo tempo que incentivam o pecado, as maldições perdem sentido e força à medida que são esquecidas e meus pais gostam de saber que, pelo menos, alguém as mantém vivas. As verdadeiras e mais doentias maldições continuam sendo o coração insensível dos homens. Quando dizem que tenho o coração negro, já me ocorreu questionar em que situação estaria o coração desses seres podres, com sua ganância desmedida que os impelem a explorar, matar e destruir qualquer pessoa ou coisa no seu caminho, e meu protesto pessoal é não compactuar com ele. Por isso, minha opinião é tão crítica ao consumismo desenfreado.”

Enid precisou de um tempo para assimilar tantas palavras ditas de uma vez por sua colega de quarto.

“Gostei de saber que as tradições na sua família podem ser interpretadas… Queria que com os lobos fosse assim. Você sabia que a maioria das minhas coisas são de liquidação?” perguntou Enid. “Meus pais pensam nos meus irmãos como responsáveis pela linhagem, enquanto sou apenas moeda de troca. Por isso, Yoko, Divina e eu combinamos de fugir para algum lugar longe de nossas famílias assim que terminarmos o ensino médio. Yoko não estaria fugindo, apenas nos acompanharia. Meus pais já deixaram claro que me dão dinheiro, mais para que eu não envergonhe o nome da família do que por querer meu bem-estar. Por exemplo, meu celular está quebrado há meses, mas… não estou reclamando, ninguém tem a obrigação de me bajular, mas… entende que não é um investimento tão grande quando você quer alegrar uma pessoa que, na teoria, deveria amar incondicionalmente? Muita coisa que uso é comprada em liquidações e brechós, e se parecem bem, é porque aprendi a costurar e gosto de pensar que tenho bons olhos para moda.”

“Discutível…” provocou, a vidente.

“Sabe o que é mais ridículo? Meus pais têm dinheiro. Nada como os seus, mas não são pobres, então, o fato de me tratarem como a gata-borralheira e exigirem de mim mais que de meus irmãos, não faz sentido. Tudo o que minha mãe faz é reclamar e encontrar defeito para tudo que faço…”

Wednesday não sabia como responder àquilo. Por mais que o desejo de escapar dos abraços constrangedores de seu pai fosse latente, ela, por puro bom senso, se via obrigada a reconhecer que seus pais, por mais defeitos que acumulassem, eram milhões de vezes menos ruins que os de Enid.

O silêncio durou tempo demais e, quando a vidente voltou a olhar para a loira a seu lado, a menina dormia.

 

Na manhã seguinte, Enid acordou achando que os acontecimentos na floresta haviam sido um pesadelo, mas, para sua surpresa sentiu cheiro de comida e, ao abrir os olhos, se deparou com uma bandeja sobre sua mesa, repleta de torradas, bacon, pães e bolos, além de duas xícaras de café, suco de laranja e um pote de iogurte, e Wednesday estava à mesa escrevendo em seu diário, ainda com o braço na tipoia e a touca na cabeça.

Assim que a loira voltou do banheiro, pronta e faminta, devoraram a primeira refeição do dia e satisfeita, Enid não conseguiu mais controlar a curiosidade.

“Wends… por que você está usando essa touca?

A morena levou seu tempo para elaborar uma resposta e só depois Enid percebeu o quanto de confiança e coragem sua colega de quarto precisou para falar sobre o assunto.

“Na enfermaria, se aproveitaram do meu estado debilitado e lavaram o sangue dos meus cabelos antes que tivesse a oportunidade de alcançar a bola de cristal e mostrar para meus pais, alegaram estar à procura de ferimentos ou algo para remendar… e devido ao ombro lesionado não consigo refazer as tranças.” — a essa altura, a voz da morena pingava constrangimento — “Ninguém tocou em meus cabelos a não ser minha mãe e mesmo ela não o faz há vários anos.”

“Se você quiser… eu poderia…”

“Por favor, Enid!” — respondeu Wednesday num tom ansioso — “Me sinto nua sem elas.”

 

Enid não sabia como interpretar tamanha demonstração de confiança, o sorriso em seu rosto fazia doer os cortes que repuxavam, mesmo quase curados devido ao fator de cura acelerada dos lobos, mas que nunca atuaram com tanta velocidade.

Resolveu fazer o simples, manter o silêncio para não provocar sua colega de quarto, mesmo sem querer, caso começasse a divagar sem controle como acontecia sempre que ficava excepcionalmente ansiosa ou feliz e conduziu a vidente para a cama, sentou atrás dela e seguindo as instruções, passou quase uma hora absolutamente encantada com a oportunidade de não apenas ver Wednesday de cabelos soltos, mas, além disso, estava ali, escovando os longos cabelos negros e trançando com firmeza, tendo de refazer um dos lados três vezes até conseguir que ficassem simétricas e repuxadas como Wednesday queria.

Depois disso, saiam para se inteirar de como as coisas aconteceriam dali em diante na escola.

Notificadas sobre a iminente interrupção do ano letivo, foram informadas de que teriam ainda dois ou três dias para os pais ou responsáveis cuidarem dos detalhes para dali o mais rápido possível os respectivos filhos, enquanto esperavam os alunos embalar suas coisas e cuidarem das despedidas antes de voltarem para casa.

As meninas ficavam a maior parte do dia no quarto, cuidando dos próprios assuntos, relaxando ou conversando. Yoko, Divina e Bianca apareciam para conversar, mas Wednesday sempre escolhia manter distância ou sair para deixá-las com a privacidade que precisavam.

Nas vezes que involuntariamente ouviu trechos de conversas, percebeu que as palavras de Enid, quando tratava com ela a relação com a mãe, eram minimizadas quando falava com as outras meninas. E, em alguns momentos, procurou explicação lógica para isso.

Quando estavam a sós, Wednesday, talvez tentando parecer solidária, contava histórias constrangedoras da família. A intenção era sempre assustar, mas se continuou narrando as presepadas de seus familiares foi porque Enid reagiu achando tudo muito hilário.

A morena eventualmente tecia algum comentário depreciativo sobre Morticia, mas já então tinha plena consciência de que, por mais difícil que fosse a própria relação com a própria mãe, a de Enid era verdadeiramente um inferno.

Esse foi o tom dos dias que se seguiram, a morena não voltou a dormir na própria cama e as conversas se estendiam por horas até que Enid pegasse no sono, sempre antes de sua colega de quarto, que parecia fazer questão de velar o sono da loba até se certificar de que nada aconteceria.

Apenas o cuidado básico com a pessoa que lhe salvou a vida, justificava para si mesma sem muita convicção.

 

Quando o sinal autorizando aos passageiros soltar o cinto de segurança Enid colocou os fones de ouvido por baixo dos protetores e iniciou uma coletânea de música que montara durante aquele semestre, misturando K-pop com peças para violoncelo e a trilha sonora de filmes, releu toda a conversa, com um sorriso no rosto, totalmente esquecida de transformações, intrigas familiares, abusos domésticos ou expectativas de matilha.

E ainda sorrindo, adormeceu mais fácil do que imaginara possível.

 

Quando o sinal indicando que estavam prestes a pousar, foi anunciado, toda a tensão e medo que a conversa com Wednesday ajudara a dissipar, voltou de uma vez, enchendo a loba de apreensão, tanto que quando andava pelo saguão do aeroporto, quase deixou o celular cair ao senti-lo vibrar em sua mão.

A mensagem de áudio era longa e a menina teve que respirar fundo várias vezes antes de recolocar os fones nos ouvidos e resolver ouvir o que sua mãe tinha a dizer.

 

Ester: Enid, chegou ao meu conhecimento que você se envolveu em uma briga e está com o rosto cheio de cicatrizes. Como se não bastasse nos decepcionar continuamente com seu comportamento inadequado, agora mais isso. Como espera encontrar um companheiro, agora que está toda desfigurada? Não que tivesse grandes esperanças com você sobre isso. Outro absurdo sobre o que andam fofocando é que você teve sua primeira mudança. A quem você quer enganar, Enid? Ninguém consegue se transformar em lobo durante uma lua de sangue, quanto mais pela primeira vez. Outra coisa, não poderemos buscá-la no aeroporto, surgiu um assunto e estaremos ocupados, pegue um táxi e, se não tiver dinheiro, pague quando chegar em casa, deixamos algum dinheiro no aparador. Essa escola que você fez tanta questão de frequentar, além de ser um gasto inútil, aparentemente está servindo apenas para piorar seu comportamento rebelde. Com certeza é tudo culpa daquela aberração com quem Weems te obrigou a dividir o quarto. Sempre soube que aquela bruxa não era uma boa influência. Você sempre foi fraca e se deixa enganar por qualquer um. Não sei por que imaginei que dessa vez seria diferente. Teremos de repensar sua volta, se é que aquele antro abrirá novamente.

 

— Nem um “como está você, minha filha querida”? — perguntou Enid, irônica e azeda, olhando para o celular.

Suas mãos tremiam de raiva e mágoa ao ter a prova definitiva de que sua mãe sempre pensou nela como um incômodo.

Aquilo era tão confuso para a menina que ela simplesmente não conseguia entender. Em sua forma adolescente de pensar, ser mãe parecia algo tão maravilhoso, ser responsável pela vida de outra pessoa ao mesmo tempo que parecia algo grande demais, ao mesmo tempo, também parecia uma honra. Amar alguém mais que a si, como imaginava que os pais “normais” amavam os filhos, e perceber que sua mãe não a amava da mesma forma, abria uma ferida em seu coração, obrigando-a a se esforçar muito para não cair no choro no saguão cheio de gente à sua volta.

 

Passou mais tempo olhando para a tela escura sem saber como processar aquela demonstração da mãe sendo o que sempre foi, sem achar um pensamento que explicasse que uma mulher que a trouxe ao mundo não a amasse.

Ela sabia que Ester seria informada sobre as coisas que aconteceram nos dias anteriores, mas a mensagem recebida deixava claro que ela só acreditara naquilo que pensava ser o máximo possível relacionado a filha, a loira imaginava, a princípio não contar para a família ou apenas contar que se transformara e talvez, elas poderiam se aproximar e ter um relacionamento mais perto do modelo “normal” de duas pessoas que se relacionam como mãe e filha, mas, aparentemente, nada satisfaria a líder da matilha.

Porém, foi arrancada de suas reflexões quando o celular voltou a vibrar e seu coração bobo, desejou que fosse sua mãe dizendo que a mensagem anterior fora apenas uma brincadeira, de muito mal-gosto, diga-se de passagem.

Tristeza e euforia se chocaram com força em seu coração, pois, se não era uma mensagem da mãe, pelo menos, quando viu o nome de Wednesday, conseguiu sorrir e, para aumentar ainda mais seu espanto, com um PDF anexo.

 

Wednesday: Querida, Enid.

Estou em casa.

Durante o restante do trajeto, fui invadida pela constatação de que as informações que tenho sobre lobisomens, de modo geral, são falhas, e sobre aqueles que se transformam pela primeira vez durante uma lua de sangue, ainda menos adequadas. Portanto, após passar pela sabatina de meus pais e avó, e trancar no cofre da família o anel de Crarckstone, exigi da biblioteca um compêndio que contemplasse as informações necessárias para a dissolução dessa falha.

Com a ajuda, contrariada, de Pugsley, digitalizei as informações que penso serem úteis para diminuir suas angústias, pelo menos em relação às incertezas anunciadas anteriormente.

Confesso estar agradavelmente surpresa com as informações descobertas, Ernest foi irmão do meu tataravô e aparentemente era tão curioso e peculiar em suas relações como todos os Addams, mas deixarei que descubra do que se trata por conta própria, apenas sugerindo que leia antes de confrontar sua desprezível genitora.

Mesmo tendo diferenças significativas com a minha, aquela que trouxe à luz desse mundo degradante, apesar de todos os defeitos, merece o título de mãe, muito diferente de Ester. Essa mulher não é digna de você!

 

Sua, Wednesday Friday Addams.

 

Enid: Cheguei a São Francisco. Ainda estou no aeroporto. Ester mandou uma mensagem. Ela não acredita em nada que ouviu sobre as coisas que vivemos. Acha que me envolvi numa briga e que estou com o rosto desfigurado.

A resposta veio tão rápido que Enid ficou confusa.

Wednesday: Suas cicatrizes não mudam em nada a grandiosidade de sua aparência, Enid. Se muito torna você ainda mais agradável de ser admirada, sem contar, que, para minha família, cicatrizes são medalhas de honra e coragem que exibimos com orgulho e que miramos com respeito e orgulho. Sobremaneira, conhecendo a origem das suas, para minha família será material para tecer os mais eloquentes discursos e a elaboração de poemas que resistirão ao tempo.

 

Enid: Estou saindo agora, vou para o meu lugar predileto na cidade, um bistrô que parece estar lá desde antes da fundação da cidade e que você odiaria, mas as batatas deles são divinas… vou me aconchegar para ler o estudo do seu tio-tataravô… (nem imagino como essas coisas de famílias antigas funcionam). Falo com você daqui a pouco.

 

Wednesday: Estarei aqui.

 

Sem perder tempo, Enid tomou um carro de aplicativo e foi para sua bomboniere predileta, sentou numa mesa no lado de fora, à sombra de uma árvore de copa frondosa, e pediu um milkshake, um hambúrguer, batatas fritas e uma torta de pêssego. Comeu, pois estava quase morrendo de fome, e apenas depois, quando a garçonete trouxe o segundo milkshake, ela abriu o arquivo.

A leitura foi surpreendentemente rápida, apesar do vocabulário rebuscado, do papel antigo e da letra manuscrita, a compreensão do conteúdo foi fácil, talvez por explicar as principais dúvidas que fervilhavam na cabeça da loba.

 

O tal Ernest Mulder Addams discorria sobre uma série de estudos realizados pelos Addams a respeito dos lobos de sangue e ele falava em tom bem pessoal sobre uma loba nascida sob uma lua de sangue com quem teria se relacionado intimamente em ocasiões “escolhidas” (Enid não fazia ideia do que isso significava) no final do século XIX, e que, segundo ele, corroboravam as informações colhidas por outros estudiosos da família que dedicaram suas vidas a conhecer e documentar os lobisomens de modo geral e em especial os extremamente raros nascidos sob a lua de sangue.

 

A loba a quem ele chamava Deusa da Lua, claramente uma tentativa de manter a privacidade da amada, trazia as mesmas semelhanças mais notáveis, sempre lembrando com entusiasmo o quanto correspondiam aos descritos anteriormente.

 

“Além das propriedades de cura presentes na saliva, obtendo resultados surpreendentes até mesmo em criaturas de outra espécie e inclusive em humanos comuns, a loba que voluntariamente aceitou participar do estudo possui absoluta capacidade de liderança, porém estudos anteriores citam que essa particularidade não é inerente. (ver nota de rodapé).”

 

A nota tratava sobre a contrariedade do autor, em relação ao uso do termo ‘líder’, que na década de 1940 foi adotado como “alfa” num estudo potencialmente tendencioso, pois tanto ele, pessoalmente, quanto a Deusa da Lua não concordavam que as pessoas nascessem para ocupar classes pré-determinadas dentro de uma espécie, detalhe com o qual Enid concordava inteiramente.

 

“Sua influência abraça outros tipos de ‘excluídos’ e mostra lealdade absoluta a todos que se aliam ou aqueles com quem se relaciona afetivamente ou em laços de amizade. A capacidade de criar alianças, até mesmo entre os humanos tidos como “normais”, auxiliou na conquista de significativos avanços sociais em todas as civilizações ao redor do mundo e sua descendência trouxe lobos fortes e sua criação fez deles pessoas justas e honestas.”

“Tal e qual relatado em estudos anteriores, também a Deusa da Lua se mostrou fisicamente mais alta e extremamente mais forte que todos os membros da espécie em sua época e localização, bem como sentidos até dez vezes mais aguçados que lobisomens experientes.”

“Um parêntese relacionado às mudanças físicas observadas na versão humana daqueles que se transformam sob a influência da lua de sangue, enquanto outros metamorfos têm seu corpo humano modificado em tamanho, adquirindo força e estatura à medida que se transformam, e essas mudanças podem persistir por meses ou anos. No caso dos lobos de sangue, o crescimento acontece e finaliza em poucos dias, podendo atingir ganho significativo.”

“Pessoalmente, entre tantos atributos impressionantes, aquele que mais me encanta é que ao contrário dos outros lobisomens, esses, os filhos da lua de sangue, possuem capacidade de se transformar de acordo com a própria vontade, total ou parcialmente, e pelo tempo que desejam ou precisam, sem ter a força diminuída.”

 

E se isso explicava como Enid se sentia e os indícios que vinha apresentando, os parágrafos finais, em especial, tocaram fundo em seu coração.



“Os lobos de sangue dificilmente se transformam pela primeira vez no começo da adolescência, ou seja, entre os onze e quatorze anos, também pela raridade com que acontece o surgimento da lua vermelha, podendo em alguns casos se transformar apenas na idade adulta.”

“Como observado em estudos anteriores e comprovado com a honrosa oportunidade de conviver e viver com um, é certo afirmar que afortunados em nascer para se tornar um a mais desse tipo esplêndido de lobo, possuem a mais profunda conexão com a sua natureza lupina, sendo talvez os únicos que podem efetivamente afirmar viver em total harmonia com o conjunto Homo sapiens e canídeos.”

“Ouso dizer que apenas os lobos nascidos sob a influência da lua de sangue compartilham igualmente no mesmo receptáculo orgânico a presença de ambas as espécies, vivendo mais que em coabitação, mas principalmente em coexistência, onde os instintos, sabedoria, determinação e força emocional de um auxiliam nas escolhas do outro, e indo além do que me é permitido, mas no papel de testemunha ocular, tomo a liberdade de afirmar, são as criaturas mais gloriosas e fascinantes já criadas no planeta.”

“Penso que a raridade com que surgem entre seus pares se dê pela difícil conjunção de qualidades exigidas. Antes de se tornarem lobos excepcionais, os consagrados a viver nessa condição já são pessoas de estirpe superior e, considerando que quanto mais avança a humanidade, com o acúmulo de crimes e maus hábitos tomados como aceitáveis, receio que no futuro os lobos de sangue se tornarão ainda mais raros.” 

 

O dia caminhava para o fim quando Enid terminou a leitura e fechou o arquivo. O crepúsculo, ao contrário de como acontecia na maioria dos dias, ali na cidade onde cresceu, dessa vez não pareceu opressor como Enid sempre o interpretara.

Sorriu ao pedir um bolinho de canela e um café, imaginando a expressão de horror no rosto lindo de Wednesday com a quantidade de açúcar que quase fez transbordar o líquido do copo. Pensando na colega de quarto, pousou-o na mesa, pegou o celular e escreveu uma mensagem.

 

Enid: Não sei como agradecer… 

Parece que um mundo novo se abriu para mim e não sei como andar por ele. Gostaria tanto que você estivesse aqui para podermos conversar…

 

Enid esperou que alguma resposta viesse, mas depois de cinco minutos deixou o celular sobre a mesa e ficou olhando o movimento das pessoas na rua, imaginando se um dia poderia ter aquilo, a liberdade de se esconder na multidão sem que seu cheiro denunciasse sua espécie, sem que as tradições da matilha determinasse suas escolhas, sem as complicações com uma mãe problemática e evidentemente narcisista.

 

Depois de quase vinte minutos, quando pensava em ir embora, o celular vibrou novamente.

 

Wednesday: Estarei sempre à sua disposição.

Levei a meus pais a sugestão de recebê-la aqui e a euforia deles com a possibilidade de sua vinda me deu dor de cabeça.

Enid, encontrei uma série de cartas trocadas entre um ancestral e um lobo, onde o assunto gira em torno do risco que os lobos de sangue oferecem a quem deseja manter o poder como líderes das alcateias, existindo ocorrência de verdadeiras caçadas a pessoas iguais a você.

Não digitalizei por estarem em italiano e até onde sei sua compreensão do idioma não seria abrangente o suficiente para a perfeita compreensão

Escrevo sem o menor traço de ironia ou sarcasmo, se pudesse preferiria tratar desse assunto pessoalmente, porém como o tempo urge e o assunto merece toda consideração, espero que você encare as próximas palavras com total seriedade. 

Não digo isso para te assustar, para diminuir seu brilho ou convencê-la a se esconder, mas para precavê-la caso a recepção em sua casa se mostre hostil.

Já na época em que Ernest Addams escreveu aquele estudo, pessoas vis haviam disseminado por toda parte boatos totalmente infundados de que os lobos de sangue se tornam descontrolados, selvagens e assassinos, uma desculpa ridícula para justificar que fossem caçados.

Por serem destinados pela própria natureza a encabeçar os grupos, representam relativa ameaça aos políticos que gostam de manter o poder em suas garras.

Não encontrei nenhuma referência recente ao assunto, sendo as últimas notícias que tenho acesso datadas de setenta anos passados.

Com isso, e sabendo como Ester tenta a todo custo manter o título de liderança do clã. Imploro que não dê motivos para sua mãe usar sua célebre condição como argumento para uma eventual traição.

Sei que você, possuindo um dos corações mais puros que conheci, mantém a triste ilusão de ser aceita por sua família sendo exatamente quem você é. Infelizmente, a experiência com esse tipo de assunto, mesmo que em terceira pessoa, mostra que a chance de tais mudanças acontecerem, como você deseja, é mínima. Pessoas como Ester não deveriam ser autorizadas a procriar.

Peço que me perdoe e rogo para estar errada, porém, se o desenvolvimento da sua estadia com essas pessoas medonhas que, na minha opinião, precisam provar serem da sua família, seguir o pior roteiro, estarei sempre a uma mensagem de distância e, se você quiser, terá em minha casa o refúgio merecido para ser a pessoa que você desejar.

Novamente peço perdão se me equivoquei, mas sua segurança e integridade são assuntos que encaro como prioridades absolutas.

Se não receber notícias suas, queimarei a cidade inteira, se for o caso, para encontrá-la

 

Sua, Wednesday Friday Addams.