Work Text:
土
When you took me in, absolved my sins,
With your flesh and skin,
Use your skin.
Use your body, use to put me to sleep,
Your body, oh,
Soothe my soul,
So beautiful.
土
Anteontem, ceifaram os Couraças.
Anteontem, descobriram o sequestro de Pomba pelas mãos de um suposto aliado – Cristino.
Anteontem, o sacrifício dos Couraças foi realizado.
Obsessão, Lealdade, Servidão, Paixão.
Ontem, uma busca desenfreada e um desespero arrebatador os guiou até o Pássaro perdido. Resgataram o menino, extremamente ferido, mas ainda com vida. Um guerreiro exímio, como havia pensado Aguiar…Jasper? Não podiam negar, Pomba era um jovem muito forte.
Ontem, o sacrifício da equipe Psikolera foi realizado.
Repressão, Ira, Rancor, Frustração, Rebeldia.
Aquela noite havia sido bruta, com a adrenalina ainda correndo forte em suas veias quando chegaram na mansão. Pomba não parecia compreender o peso de sua própria existência, desfalecido no banco de trás do carro dos Couraças, descansando como se não houvesse amanhã. Seus ferimentos precisam de um cuidado especial para que conseguisse resistir à mais um dia no inferno. Com a ajuda de Juan, Jasper não exita em tomar o moreno em seus braços, bem já havia se acostumado com aquele peso. Quando o outro propõe deixar o cartógrafo dormindo em uma cama mais isolada, ele apenas acena em afirmação, deitando-se no móvel à sua frente apenas por precaução. Depois de alguns assuntos descontraídos demais para o peso daquela noite, os mascarados caíram no sono, nada preparados para o amanhecer que definiria seus destinos.
Hoje, lutariam contra os Vampiros.
Sua alma ardia.
Encostado na cama e sentindo seu corpo ardendo pelos cortes profundos do cangaceiro, Pomba não conseguia pensar em algo além dos estigmas – o de Miasma, em especial. Se restassem-lhe forças, já haveria se colocado frente à sua mesinha. Estaria anotando em seus papéis inúmeras justificativas para o peso em seu coração, mas seria inútil. Tinha tanto que queria descobrir sobre sua condição de desertor. Ainda mais quando os efeitos dos sacrifícios recentes pareciam comê-lo vivo. Porém mal conseguia manter-se em pé naquele momento. Seus braços coçam e ardem, implorando por um descanso além do que aquelas camas improvisadas poderiam proporcionar. Há pouco mais de uma hora houvera despertado, os sons de conversas alarmados interrompendo seu descanso. Em poucos minutos, tinham-lhe jogado um balde de água fria com a morte de Dalmo. Ainda sentia o aperto em seu coração ao pensar no lutador grandalhão que o tratou com esmero nos poucos dias que se conheceram.
Agora, a equipe debatia a melhor estratégia. Como poderiam encontrar suprimentos e formar uma aliança com Caio e Cindy, restando-lhes tempo de sobra para encarar os vampiros? Era uma possibilidade difícil, mas ainda assim possível. Os minutos se estendiam com o debate, uma estratégia nascia aos poucos. Uma que permitiria que os mais feridos descansassem para a batalha. Isso é, com a exceção de Aguiar…Jasper, que dirigiria pela área árdua da caatinga em busca de suprimentos que poderiam ser úteis tanto para a casa quanto para a energia dos Mascarados. Assim como esperado, Kemi…Lena e Eloy iriam até o circo dos Psikolera, em busca de um acordo de paz que lhes garantiria um apoio na luta contra os Vampiros. Henri, Jae e Labirinto – Juan, Maria e Remi – permaneceriam na mansão, reunindo forças para o que der e vier.
Pomba estava exausto, mas queria ajudar.
Frustração. Sua condição não era justa. Como poderia ficar naquela cama desconfortável, limitado pelas feridas em seu próprio corpo, enquanto seus companheiros de equipe se preparavam para uma batalha tão crucial, talvez sua última? Aqueles malditos Vampiros.
Encostou a cabeça dolorida contra o travesseiro, levantando os braços enquanto checava as bandagens que Lena tivera feito na noite anterior, enquanto descansava sob a manta quente. Com seu foco nas manchas de sangue que rompiam o branco empoeirado das bandagens, conseguia ver a grande silhueta de Aguiar se movimentando. Ele colocava sua jaqueta vermelha rasgada nas pontas, se abaixando para pegar seu enorme machado de onde repousava no chão. Eloy e Lena já haviam partido, e o delegado se preparava para partir. Em um cômodo distante, Juan provavelmente encarava o teto, enquanto Maria e Remi compartilhavam um abraço apertado que se assemelha em demasia a uma despedida. Eles sequer perceberiam.
O moreno gira seu corpo na cama, seus pés indo ao chão com certa dificuldade. Sente seus ossos estralando alto demais para ser saudável, os rasgos em seu corpo ardiam, mas não eram piores que os cortes que os estigmas faziam em sua alma.
Repressão. Por quantas noites não imaginou suas próprias mãos segurando a cabeça decepada de um daqueles vermes? apertando até que seus dedos se tornassem brancos? com o sangue carmesim escorrendo de todos os cortes e orifícios que conseguia enxergar daquela cabeça mole, frágil e sem vida? Apertaria, socaria, chutaria, que os céus o tenham, morderia. Não aguentava mais esse medo, essa angústia, essa Ira. Não podia evitar os sentimentos nefastos que aquela equipe maldita forçava em seu peito. Sua família havia sucumbido perante suas garras, seus dentes afiados, sua sede por sangue. A esse ponto, sequer consideraria possível superar todo esse Rancor sem arrancar si mesmo a cabeça de um dos imprestáveis.
Não conseguia lidar com tudo aquilo, e ele sabe de alguém que entenderia.
“Não sei se é seguro deixar o Pomba sair no dia de hoje” Foi um dos argumentos usados para que pudesse permanecer descansando em casa. De início, apenas concordou, sem saber o quanto a decisão pesaria seu peito em questão de minutos após fazê-la. Os Mascarados foram uma luz no fim do túnel. Queria ajudá-los, retribuir o apreço com o qual foi cuidado. Harpia entenderia, uma hora ou outra.
Em passos cansados, caminhou até Jasper, que pelos movimentos mais lentos de seu corpo, parecia estar igualmente exausto. Os últimos dias não tiveram misericórdia de nenhum deles – se trata do Hexatombe, ao final.
– Pomba? – Ele chamou, ao vê-lo se aproximar. Em poucos segundos, o mais velho já está ao seu lado, passando seu braço por seu ombro, ajudando-o a manter-se em pé. – Combinamos que você iria descansar por essa tarde, o que faz aqui? Eu tava pra sair agora, bonitão.
O moreno sacode a cabeça envergonhado, perguntando-se o que deu no homem para que começasse a chamá-lo assim de uma noite à outra. Não estava reclamando, no entanto. Seria um grande mentiroso se falasse que não se deleitava com esse tipo de interação, ainda mais com um homem como Aguiar…Jasper? Que era perigosamente o seu tipo. Algo além de medo o consumira desde que foi levantado por aqueles braços fortes pela primeira vez, algo que preferia manter em segredo. A esse ponto, se perguntava se o mais velho já havia percebido algum de seus deslizes, não sabia se preferia que a resposta fosse sim ou não. Sequer sabia de onde vinham tais pensamentos, talvez fosse seu ombro se encostando contra o forte peitoral do delegado, ou a forma como este o segurava com o cuidado pouco característico de suas mãos calejadas.
Ele abaixa a cabeça, respirando um ar trêmulo, forçando as palavras para fora como se precisasse desengasgar.
– Eu vou contigo. – Pomba revela, erguendo sua cabeça para que pudesse manter contato visual com o outro.
O aperto se afrouxa por alguns segundos e ele odeia isso.
– Você…vai comigo? Mas…Pomba, não foi isso que combinamos com os outros. Você ficaria para descansar.
Não.
Ele não quer descansar, não quer continuar sendo o peso que havia sido até então. Se vai mesmo seguir com o plano de Harpia, deve ao menos Servir aos Mascarados o que pode oferecer, as habilidades que pode colocar à mesa, enquanto ainda pode fazê-lo. Quer ajudar, ser útil. Não quer ser um estorvo. Precisa retribuir o que lhe foi oferecido. Não estaria vivo se não fosse por eles.
A imagem de Jasper dando-lhe comida quando sequer sabia se restaria para ele próprio queimava o fundo de sua mente. Todo aquele cuidado caía como um machado em seu coração. Não sabia se poderia traí-los com aquele peso perfurando seu peito.
– Eu conheço a área, posso te ajudar a cortar caminho, voltaria muito mais rápido com o que precisam… – Uma tosse interrompe sua fala, fazendo-o parecer mais frágil do que queria. – Eu estou mal, é verdade. Mas não é como se fosse fazer muito esforço dentro do carro.
– A Lena vai me matar.
– Ela não precisa saber.
– …Pomba? – Erguendo uma sobrancelha, o delegado se afasta para enxergá-lo melhor.
– Eu só quero ajudar vocês, Jasper. Você está cansado, é bom ter alguém ao seu lado, também. – Com todo esforço do mundo, lança em sua direção o olhar mais coitado que conseguia manter. Não era como se fosse tão difícil, no estado em que se encontrava. – E ninguém precisa saber. – Rebeldia.
Fortalecendo o agarre em seu ombro, Jasper encara seu rosto, passando por todo seu corpo com suas orbes esverdeadas. Pomba sente aquele olhar queimando buracos por onde passava e, finalmente, ouve um suspiro rendido.
– Vou ao menos avisar o Juan. Ele não deve se importar. Pegue suas coisas se for preciso, me espere no banco do passageiro.
Vendo-o se afastar, Pomba sente seu rosto involuntariamente se deformando em um sorriso de canto. O corte em sua alma parece arder ainda mais, gritante por algo que não conhecia ainda. Ao menos, achava que não conhecia.
Sente um burburinho insistente em seu corpo, como picos de ansiedade se preparando para entrar em ação à qualquer momento.
Suas dores de desertor. E algo a mais.
Quem diria.
土
O carro se movimentava de maneira rápida, a paisagem da caatinga se transformando em vultos coloridos, uma paisagem abstrata e efêmera da qual nunca poderia se esquecer. Nem se quisesse, após tantas dores naquele lugar.
– E agora? – Jasper pergunta, seus dedos firmes no volante, com uma força que o moreno invejava. Seu agarre ainda era incerto. Contrastava com o de seu companheiro de viagem de forma bela.
Pomba encarou o mapa com seus olhos e mãos trêmulos, desde que deixaram a mansão, sentia o peso dos estigmas em suas costas, como se houvessem sido cravados ali. Frustração. Focado demais na estrada, o delegado mal havia percebido sua ansiedade repentina ou as gotas de suor que desciam por suas têmporas. Servidão. Engolindo o sangue em sua garganta e disfarçando com uma tosse, o moreno responde.
– Esquerda. – Sussurra, o som quase não saindo pelos seus lábios entreabertos.
– Entendi. – A resposta é curta demais quando o delegado gira o volante, alternando para a direção adequada.
Pomba trava seus olhos em seu maxilar definido inconscientemente, suspirando ao perceber de perto cada detalhe no rosto do mais velho. Sua face esculpida pelos anjos mais determinados do inferno, seus músculos fortes de tantos cadáveres carregados por meio de mata alta. As suas cicatrizes, tanto uma lembrança quanto um troféu. Não estavam próximos o suficiente, ainda. Ele consegue ver suas rugas de expressão, pintinhas quase imperceptíveis em suas bochechas e abaixo de seu nariz. Detalhes que outrora passaram despercebidos, mas que agora o fascinam cada vez mais. Talvez fosse o calor. Talvez fossem as dores de desertor. Talvez fosse o estigma que cortava as costas de Miasma.
Mas ele parecia tão belo agora.
Aguiar tivera-lhe tomado pelo corpo, enquanto Jasper o dominara por alma.
Era uma verdadeira obra de arte, a qual ele desejaria nada além de proteger. De tocar, talvez… sentia seu coração apertando, sua face se enrubescendo à medida em que se recordava cada momento no qual seus corpos se tocaram desde que chegou na mansão dos Mascarados. Não era bobo, percebia os olhares e os cuidados que o delegado lhe reservava, sempre com aquele orgulho característico de haver ceifado a vida de uma das vampiras que atormentou sua família. Sempre fazendo-lhe juras de proteção. Sempre tocando-o com cuidado. Aquela Obsessão não era nada novo, tampouco unilateral.
Observando Jasper dirigir, ele recosta a cabeça no acolchoado do banco, soltando suspiros involuntários ao captar as veias saltadas do mais velho enquanto dirigia, segurando o volante com mais força que o necessário.
O silêncio lhe parecia agradável, mas parece que coçava a mente do delegado.
– Então…como era sua vida antes? – Pergunta, buscando romper o silêncio que tomava conta do veículo. – Digo…antes de tudo. Antes dos pássaros.
Pomba deixa escapar uma risadinha leve antes de responder, se virando para o maior na medida em que sentia seu corpo dolorido punindo-o pela tentativa de aproximação.
– Ugh… – Massageia suas pernas, tentando se acostumar aos movimentos após tantas horas amarrado. – Bom…eu era…sou de Minas Gerais. Não tive muito contato com minha família e vivia por aí, saindo durante a noite, mascarado…pichando alguns muros aqui e ali. – Ele estica os braços descontraidamente, esperando a reação de Jasper, que apenas ri, seus olhos ainda na estrada. Queria que estivessem vidrados em seu corpo.
– Cuidado com o que me fala, Pombinha. Eu não sou delegado, mas o Aguiar é. – O cartógrafo não entende ao certo, virando sua cabeça para o lado, uma mecha teimosa caindo livre por seu rosto. – Eu vou ter que te prender, bonitão.
Pomba sente sua respiração se tornando errática, mais um corte profundo é feito em sua alma. Punindo-o por sua posição de desertor. Um rasgo ardente, que ecoa e ressoa em sua psique uma nova palavra.
Paixão.
Deveria odiar como era punido pelo Hexatombe por não possuir mais um sacrifício. Deveria detestar o estigma que o sacrifício dos Couraças carregava. Suas consequências, em especial, eram as mais vergonhosas de se lidar. Mas, mordendo os lábios inferiores enquanto devorava o delegado com seus olhos âmbar, ele não se importava. Seu corpo ardia e tremia, os cortes da adaga de Cristino pareciam pulsar em resposta. Estava ansioso. Jasper não é bobo, olhando-o de canto daquele jeito, definitivamente deve haver percebido a mudança no clima e o tremor das mãos do moreno.
Precisava de ajuda. E ele sabe que Jasper adora ajudar.
– Para o carro, Jasper.
Desviando o olhar da estrada por completo pela primeira vez, o delegado tem seus olhos sobre si. Ele vira a cabeça um pouco para a esquerda, demonstrando sua confusão como se fosse um cachorrinho.
– Quê? – Mesmo com o questionamento, ele diminui a velocidade. Sequer havia entendido seus motivos, mas ainda havia obedecido. Perfeito.
– Encosta em qualquer lugar. Desliga o carro e fecha as j…janelas. – As dores eram um pouco mais fortes agora, sentia novamente aquela vontade agora familiar de cuspir sangue. O que definitivamente não diminuiu em momento nenhum sua vontade de ter o outro por completo. Não apenas Jasper, mas Aguiar, também. Ainda não havia compreendido a situação na qual os agentes se encontravam, mas parte de si gostaria de acreditar que ambos – caso sejam dois indivíduos diferentes – o desejem da mesma maneira.
Obediente como sempre, Jasper encosta o carro perto das primeiras rochas que encontra, o sol sendo bloqueado parcialmente enquanto fechava as janelas do veículo. Em seguida, se vira para Pomba, assustando-se ao vê-lo tossindo um líquido vermelho. Em menos de dois segundos, já está puxando o menor para um abraço, um de seus braços acariciando suas costas. O cartógrafo parece estranhamente bem, apesar de trêmulo. Ao seu ver, é como se seu corpo e sua mente não estivessem em um acordo, expressando sentimentos e sensações completamente diferentes.
– Tem algo me devorando por dentro, Agu…Jasper. – Ele suspira, soltando um gemido de dor. Seus olhos âmbar, grandes e redondos se erguem para fitar o campo esverdeado que são as orbes de Aguiar. Com seus dedos trêmulos, acaricia o maxilar definido. – Não sei quanto tempo aguento ficar desse jeito. – Novamente, toma seu lábio inferior entre seus dedos, fechando suas pernas com força suficiente para fazer um barulho notável. – Preciso que você me ajude a me acalmar.
Ele acompanha o pomo de Adão do outro se movimentando enquanto ele engole à seco.
– Como assim, Pomba?
Deslizando a mão por seu maxilar, tenta impedir que sua timidez tome conta de seu ser, como costumava fazer. “Não é hora disso agora.” Ressoa em sua mente, e ele se assusta ao concordar. Não é como se o homem à sua frente não tivesse chamado sua atenção desde o primeiro dia.
– V…você também não está exausto? Não lutou muito nos últimos dias, por eles, por mim? – Ele abaixa sua cabeça de maneira envergonhada, provavelmente se lembrando do próprio desespero ao farejar Pomba dentro daquela caverna imunda. – Não conhece outras maneiras de recuperar suas energias além de dormir a tarde inteira?
Sua respiração torna-se infinitamente mais errática, as batidas de seu coração explodindo como fogos de artifício. Ansiedade? não, antecipação. Vontade. Obsessão. Paixão.
A garra em suas costas lentamente desenhava-lhe o estigma do sacrifício dos Couraças e, para o seu horror, se deleitava mais do que imaginou que o faria.
– Eu…eu conheço, mas–
– Então me mostra. Você, o Aguiar. Os dois. Me mostra. Eu preciso relaxar. Eu quero sentir.
Em um movimento ágil, o moreno se aproveita do nervosismo do delegado, jogando sua coxa ao redor de suas pernas e montando em seu colo com uma facilidade surpreendente. Jasper ergue o rosto em sua direção, os olhos arregalados como se tivesse visto um fantasma. Pomba se perguntava qual seria a cor natural dos olhos dele, por algum motivo. Quando percebe a ausência de suas mãos grandes e fortes ao redor de sua cintura, baixa sua face em sua direção, permitindo que seus narizes se toquem, quase em um beijo de esquimó. A aproximação apenas piora o estado do homem, que parece mais adorável que nunca. Fofo. Queria ser útil para ele, agora. Sabia que não seria o único a se beneficiar…disso.
– I…isso é…coisa do ritual, bonitão? – Jasper questiona, erguendo o dedo indicador e deslizando-o por seu nariz como se levantasse um óculos imaginário. Pomba achou adorável, mesmo sem entender. E nem teria tempo de pensar demais naquilo, pois as mãos calejadas que tanto desejava circulavam sua cintura sem tocá-lo, como se ainda houvesse uma barreira a ser rompida entre os dois. – E…você sequer tem certeza disso?
Pomba sorri, afastando suas mechas de cabelo enquanto segurava as mãos do outro até sua cintura, fazendo questão de apertá-las o suficiente para que percebesse que poderia fazer o que vier em mente.
– Provavelmente é algo relacionado à minha condição de desertor…mas o que isso faz, além de intensificar o que eu já sinto? Frustração, ira…vontade? – Ele deixa que as palavras deslizem de seus lábios como escorreria o vinho caro que sabia que tinha o apreço de Jasper. Colando seu rosto ao dele, permite que as palavras sejam desenhadas diretamente em seus lábios. O homem abaixo de si treme, apertando sua cintura com uma força inesperada para alguém atencioso como Jasper – talvez, não fosse apenas ele, no fim das contas. – Você acha mesmo que nunca percebi você? Vocês?
– Pomba…eu–
De um momento à outro, sua boca é tomada pelos lábios ferozes de Jasper, que arrancam-lhe o ar como se nunca tivesse o pertencido. A mudança repentina o assusta, mas o desejo é tanto que corrói a alma. O homem à sua frente poderia fazer consigo o que bem entendesse, não se importaria. O contato é agressivo na medida em que é carinhoso, tornando um verdadeiro desafio identificar o ritmo certo para aquele ósculo que ora parecia digno de um filme de romance de adolescente, ora parecia uma mordida de um cachorro agressivo. Não importava. Pomba adorava cada pedacinho daquele momento, com seu coração batendo forte em seus ouvidos, sentindo o agarre que alternava entre um toque terno e um aperto hostil. Aos poucos, um determinado padrão foi se formando. Quando as mãos o acariciavam com carinho, o ósculo se tornava violento – dentes batendo, gemidos e mordidas que ameaçavam derramar o sangue de seus lábios. Quando o aperto se tornava mais intencionado e forte, os beijos doces e carinhosos o levava às nuvens e cuidavam de qualquer feridinha que houvesse sido feita pelos ataques anteriores. Era cruel, apaixonado e intenso.
Era perfeito. Era belo.
Entre os poucos momentos em que se afastavam para respirar, ele não o permitia descanso. Sempre mordiscando seu pescoço, visivelmente se contendo para não machucá-lo demais, enquanto Jasper se tornava mais ousado, deixando que seus apertos e carícias se tornassem mais maliciosos.
– Eu acho que você já entendeu o que tá acontecendo aqui. – O delegado respirou contra seu pescoço, plantando um beijo carinhoso antes de morder com força. Agora, forte o suficiente para que rastros finos de sangue corressem por seu corpo, sujando suas roupas já em estado deplorável. – Ou precisa que eu explique? – Levantando seu rosto o suficiente para que Pomba pudesse vê-lo, sorri, com seus dentes levemente ensanguentados. O cartógrafo devolve um arfar ansioso.
– Eu já entendi, Aguiar.
– E você ‘tá confortável com isso, Pombinha? – Jasper pergunta, acariciando suas costas com sua mão livre. Em resposta, acena com a cabeça. Seu rubor se intensificava na medida em que percebia a situação na qual havia se inserido, mesmo adorando as consequências. – Palavras, bonitão.
– Eu tô. Eu quero. Eu preciso, – Jasper o interrompe beijando-lhe com fervor, enquanto as mãos iam agressivas até seus cabelos. Após alguns bons minutos usando e abusando das bocas um do outro, se separam novamente, ao lembrarem de que o oxigênio é, infelizmente, crucial para que continuassem vivos até o fim do dia.
Sentindo-se ousado, o moreno deixa seu corpo cair para trás, deitando-se contra o volante na medida em que suas pernas se abriam o suficiente para que não fosse possível ignorar a mancha escura que se formava em sua calça. Ignorando o calor em suas bochechas, ele retira seu cachecol lentamente, tirando alguns segundos para pentear seus cachos para trás. O delegado lhe encarava com uma feição de pura admiração, como se enxergasse a obra de arte mais bela da Galleria degli Uffizi.
– O tempo ‘tá passando. – Ele relembra, sua voz saindo manhosa e arrastada. Consegue observar os frutos de sua ousadia na respiração instável de Jasper, que novamente havia tentado levantar seus óculos imaginários para cima antes de empurrar o corpo para trás, fazendo com que o banco proporcionasse espaço suficiente para os dois. Não demorou muito para que seu corpo fosse coberto pelo maior, com apertões fortes por todos os cantos, descendo até a mancha com uma rapidez considerável.
Quando sente a língua quente do homem contra sua intimidade molhada coberta pelas camadas de roupa, sente que irá explodir. Ele leva sua mão até seu próprio rosto, mordendo-a com força. Sabia que estavam no meio do nada, mas a idéia de que o maldito Giovanni estivesse na cola deles em um momento desses não era nada agradável – controlaria sua voz, por enquanto. Para sua infelicidade, o contato foi, no entanto, breve. Quando se ergue pelos antebraços para encarar o outro, percebe seu olhar dissociado. Como se presenciasse um diálogo interno do qual ele não faz parte. Depois de poucos segundos, o olhar verde passa por seu corpo novamente, um pouco preocupado, examinando os rasgos em sua roupa.
– Você se machucou muito ontem…tem certeza que essa posição é segura pra’ você? – Soando preocupado, ele acaricia seus braços com cuidado. – Eu ia sugerir outra posição, mas…ia acabar exigindo muito mais esforço da sua parte. Não queria te quebrar antes da gente sair desse inferno.
Pomba sorri diante daquela implicação, se reajustando naquele colo quente e convidativo.
– E…eu tenho bastante força nas coxas, se é isso que te preocupa. – Aguiar se aproxima de seu pescoço rindo, o ar quente causando-lhe arrepios por todo corpo.
– Pro’ tanto que deve ter escalado muro nas suas noites de rebeldia, acredito que sim. – O agarre nas suas coxas é instável, enquanto uma mão acaricia e aperta com moderação, a outra o segura como se o Pássaro fosse tentar fugir pulando pela janela. É estranho e adorável, ao seu ver. – Mas me diz, passarinho, – O apelido desliza como veneno em seus lábios. – Quantos minutos você consegue durar?
– O quanto você aguentar.
O cartógrafo sabe que acertou um nervo no momento em que suas roupas são empurradas para fora de seu corpo de uma vez só. Retirando seus inúmeros casacos – haja paciência – o delegado não perde tempo em atacar seus seios, lambendo e mordiscando seus mamilos enquanto os suspiros apressados do moreno o estimulavam a continuar. Ele passa a puxar os cachos do mais velho, na esperança de evidenciar sua urgência. Adoraria ter todo tempo do mundo com eles. Mas sabia que desafiavam a pouca ordem daquele lugar ousando perder seus preciosos minutos naquele ato carnal. E é por isso que, quando Pomba o afasta de seus seios e parte para desabotoar as calças do homem, não há estranhamento por nenhuma das partes. Tinham um compromisso com sua equipe. Com suas equipes.
– Eu vou fazer você se lembrar dessa tarde.
Quando abre o zíper da calça de Aguiar, o moreno se assusta um pouco. Havia percebido o tamanho da protuberância em suas jeans enquanto se afogava em seus lábios, mas o peso que bateu contra o abdômen coberto definitivamente iria machucá-lo se não houvesse nenhum preparo. Não é como se fosse importar tanto assim, sabia que estava em boas mãos. Pomba sente seus pensamentos se embaralhando quando a mão do homem se espreme entre suas pernas debaixo de sua calça, alcançando sua intimidade molhada com os dedos. Ele é reduzido a uma bagunça de suspiros e gemidos altos e manhosos na medida em que seu interior é explorado pelos dedos do outro – quem se importa se o Giovanni está ouvindo?
– Você é o som mais lindo que já ouvi.
Jasper não demora em retirar suas calças com a mão livre, contorcendo o rosto em ódio ao perceber as marcas dos cortes mais recentes perto de seus joelhos, perfurando a pele macia. O moreno aperta seu ombro com força, tentando puxá-lo ao presente novamente. Eles se beijam, e não é o suficiente. Sua alma arde. O rasgar de sua essência é insistente, mas ele sorri entre o ósculo ao perceber já possui o que precisa para acalmar suas dores. Segurando-o pela cintura, o delegado ergue seu corpo, separando-se de sua boca apenas para buscar a afirmação que precisava em seus olhos âmbar. Percebendo o puro desejo em sua feição, não ousa demorar mais em unir seus corpos.
Pomba estaria mentindo se dissesse que não doeu como o inferno. Àquela não era uma ocasião com a qual estava acostumado, e a espessura de Aguiar não parecia ter piedade de seu corpo, mesmo com as carícias e o adentrar lento, cuidadoso. Sua primeira reação à intrusão foi quase um grito, mas não queria espantar o outro. Sabia o quanto sua segurança e bem-estar lhe eram importantes, então apenas balança sua cabeça, respirando fundo enquanto suas unhas curtas perfuram os ombros largos e musculosos. Quando sente o rosto do delegado se aninhando em seu ombro e se esfregando ali com cuidado, passa a acariciar os cabelos encaracolados, derretido pela demonstração de afeto naquele momento tão íntimo que, de todos os lugares do mundo, era colorido justamente pela caatinga do Hexatombe.
Após levar o tempo preciso se ajustando àquele contato, o moreno passa a se movimentar devagar, rebolando o melhor que conseguia sobre o pau do delegado. Era a primeira vez em que fazia aquilo, mas queria ser o melhor possível para eles, queria que as curvas de seu corpo se impregnassem no fundo da mente amálgama deles como uma praga.
Ele tenta aumentar o ritmo, sentando com mais força na medida em que suas lamúrias aumentavam. Sentia seu corpo queimar, seus olhos ardiam, sentia que iria chorar à qualquer momento. Mas seu esforço parece ser o suficiente, pelos suspiros e gemidos baixos que passa a escutar.
– Porra, Pomba… – O delegado deixa um tapa forte em suas nádegas, pegando-o de surpresa não pela força, mas pelo ato inesperado. Ele parecia haver se contido para não machucá-lo demais, mas o barulho do contato ainda foi alto o suficiente para tomar conta do móvel por completo. Pomba arregala os olhos, um gemido alto escapando.
– Ah!…Aguiar…meu Deus. – Ele parece tomar suas reações como um ótimo estilo, pois começa a desferir mais tapas, agora mais fortes, em sua bunda já maltratada.
– Isso…me chama pelo meu nome, passarinho. – Aguiar sorri, apertando suas nádegas e estocando para cima, seus corpos se batendo e se esfregando em um embalo que deveria ser criminoso. O homem parecia ter orgulho do que fazia com seu corpo, de ter aquele controle sobre ele. Sabia muito sobre Jasper, estava contente em descobrir mais sobre aquele assassino também. Não faria mal recompensá-lo com mordiscando sua orelha e gemendo seu nome baixinho, só pra ele. – Puta merda… – As investidas se tornam mais profundas e Pomba entende o porquê do delegado se sentir tão completo destruindo alguém por inteiro.
De um segundo a outro, seu corpo é segurado em um abraço e enquanto aqueles braços fortes se entrelaçam em si, sente suas costas e suas nádegas maltratadas sendo acariciadas, em uma massagem que se estende de suas costas até suas coxas. O moreno sorri, sentindo seu coração rodopiando em seu peito. Passando as mãos pelos cabelos do outro carinhosamente, ele faz carinho como quem recompensa um cachorrinho obediente.
– Obrigado, Jas. – Ele parece contente com sua resposta, deixando um beijo em seus lábios antes de se direcionar ao seu pescoço, fazendo ali alguns vários chupões em áreas onde seu cachecol cobriria sem nenhum tipo de problema. Uma parte mais vergonhosa de si pedia para que ao menos um deles fosse alto o suficiente para fazer o sangue em suas veias pulsar em adrenalina com a possibilidade de que alguém descubra. O moreno conseguia pensar em algumas pessoas que ele adoraria acompanhar a reação.
O ritmo de Jasper é diferente, poderia distingui-los apenas por isso. Enquanto Aguiar tem o costume de estocar com mais força e mais rápido, seu agente tende a assumir uma velocidade mais lenta sem que as investidas deixem de ser profundas. O homem parece mais exploratório, também – É o que Pomba consegue assumir ao sentir os dedos calejados estimulando seu clitóris enquanto a outra mão se pressionava sobre a carne abaixo de seu umbigo em uma massagem que parecia intensificar em mil todas as sensações do momento. Se não fosse pelo peso dos estigmas, já estaria sobrecarregado do melhor jeito possível.
— Jasper! Ah, isso…sim, t…tão…bom…você é perfeito, Jas.
Soltando uma lamúria manhosa em resposta, o agente ataca seus lábios de novo, dessa vez com mais força. Se desconhecesse o anseio por palavras de afirmação de Jasper, desconfiaria de que aquilo havia sido Aguiar.
Em meio à bagunça daquele móvel roubado que cheirava à sangue e morte, se encontraram uns nos outros em um dança que machucava e curava, atacava e protegia. Pomba não acreditava que realmente aguentaria tudo aquilo mas, preso naqueles braços fortes daquele alguém que ainda precisava ver, percebeu que seus sentimentos desde que conheceu o outro não eram meramente uma retribuição pelos cuidados que já lhe foram concebidos. Havia algo por trás daquela escuridão, algo bem claro agora. O sentimento aquece e adoece seu coração. Queria conseguir avisá-lo antes que se perdessem para sempre. Antes que tanto Jasper quanto Aguiar estivessem frente à frente com a morte.
“Eu acho que te amo.”
Cedo demais.
“Eu não quero ficar sozinho.”
Tarde demais.
Antes que pudesse se perder em seus devaneios melancólicos, as estocadas do homem o trazem de volta, derretendo suas preocupações com o calor de seu corpo. O cartógrafo mal havia percebido seus gemidos aumentando, ou a respiração descompassada de Aguiar.
– Passarinho, eu tô quase… – O delegado rosna contra seus ouvidos, apertando sua bunda com força o suficiente para deixá-la corrompida pela marca de seus dedos. Era impuro, era perfeito.
Era lindo.
Ele precisava de mais.
Juntando seus lábios apenas para que pudesse desenhar as letras contra a boca do outro, ele sussurra.
– Dentro, Aguiar…Jasper, por favor.
Já estavam no inferno. Já sabia onde aquilo iria acabar. Por que não se arriscar? Ambos possuíam uma data de validade desde que pisaram na caatinga. Aquele portal nunca foi um recomeço, sempre foi uma maldição. Queria ao menos ter certeza de que elevaria aquela experiência à um limite positivo – estava exausto dos baixos.
Jasper arregala seus olhos, confuso, encarando o rosto do moreno com se tivera visto um fantasma.
– P…Pomba? Mas–
– Jasper. – Ele rosna de volta, fincando suas unhas nos ombros largos sem se afastar. – A gente nem sabe se vai sair vivo daqui.
– Eu sei…mas você tem certeza, Pombinha? – Parecendo não se afetar pelas unhas em sua pele, ele pousa sua mão carinhosamente sobre sua bochecha, deixando um selinho em seus lábios.
– Tenho. – Ele sorri de canto, aprofundando o beijo e fazendo questão de mordiscar os lábios do homem abaixo de si. – E, seja sincero, você realmente prefere fora? – Encontrando espaço suficiente para abrir mais seus joelhos, o moreno se afunda no pau do outro por completo, antes de retomar as sentadas, cada vez mais brutas. Em poucos segundos, o agente é reduzido a uma bagunça de gemidos, dos quais Pomba faz questão de engolir entre beijos. Eram apenas dele.
– Você não facilita mesmo, Pombinha.
Aproveiram mais alguns minutos naquela bagunça impura e suja antes do cartógrafo sentir seu baixo ventre se contraindo em puro deleite, as mãos de Aguiar descendo até seu clitóris para puxar de si o orgasmo mais intenso que já experienciou. Junto à isso, uma mordida extremamente forte o acalma por completo – ele ama a sensação daqueles dentes perfurando sua pele, tomando sua carne, seu sangue. Não precisava perguntar para saber, aquilo era obra dos dois em harmonia.
Ele geme seus nomes arrastado e sôfrego, sentindo a dor mais gostosa do mundo quando o homem se esvai junto à ele. Pomba treme perante a sensação de ser preenchido pela primeira vez, seu interior apertando ainda mais o membro de Jasper, como se tentasse tirar tudo dele. Seu corpo cai sobre o outro, satisfeito e extremamente cansado. Em sua alma, sente pontos sendo feitos. Cortes sendo fechados, a ardência se esvaindo lentamente. Feridas não mais abertas e então, sono.
Se sente completo.
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– E por que você fez isso? – Jas questiona, acariciando as costas do mais novo. – Digo…ter me ajudado, sabe. Eu não era a pessoa mais ferida ali.
– Eu…queria retribuir vocês, eu acho. – Ele boceja antes de continuar. – Você parecia se preocupar comigo e…cuidava de mim.
O homem sorri enquanto encarava o caminho que seguiam com as instruções de Pomba. Haviam descido das nuvens há poucos minutos, rapidamente voltando à estrada para não perder mais tempo. Por pedido do moreno, ainda não se separaram, grudados um ao outro como se nunca fossem se afastar. Se sentiam quentes e sensíveis, mas nenhum dos três parecia ter vontade de sair daquela posição.
– Se continuar dirigindo com uma mão só, o Aguiar vai ter que te prender também. – Jasper ri com a brincadeira, seu corpo balançando tirando um gemido baixo de ambos.
– E se você não sair de mim agora algum azarado vai passar pela gente e ver. – Ele devolve, apertando sua cintura com a mão livre. – Não esquece que o Giovanni se esconde em tudo que é canto.
– Que horror! – O cartógrafo balança a cabeça, rindo enquanto erguia seu corpo o suficiente para ver a intimidade do homem flácida e sua própria escorrendo do líquido esbranquiçado. Ambos suspiram com o afastamento, a sobrecarga de sensações passando aos poucos. – Não precisa parar, pode deixar que eu te ajudo a se ajeitar.
O clima parece surpreendentemente leve enquanto Pomba se vestia e ajustava a calça do delegado, como se o mundo lá fora não existisse mais. Haviam caído em um silêncio confortável enquanto acompanhava a paisagem da caatinga. Com medo de que aquele momento acabasse rápido demais, o cartógrafo sobe novamente no colo do homem, encostando sua cabeça em seu ombro enquanto passava um braço por sua cintura. Ele deixa um beijo em seu pescoço, respirando fundo. Abre a boca como se fosse falar, mas quaisquer que fossem as letras, já se embaralharam em sua mente.
Tinham pouco tempo. E mesmo assim, ele reduziu a marcha. Em poucos segundos, o carro para.
– Pomba. – A voz rompe o vazio, próxima à seus ouvidos, embalando-o como uma canção. Ele já não sabe mais quem está falando consigo agora. Não importa. – Só…me promete uma coisa. Me promete que vai tentar ficar bem.
– Só se você me prometer que vai voltar vivo hoje.
Eles se afastam o suficiente para que suas orbes possam manter um contato árduo e contínuo. O silêncio toma conta do carro, inundado por juras que nunca serão escutadas. Orações, pedidos, promessas de amor.
Os dois se olham em silêncio, próximos o suficiente para ser íntimo, distantes o suficiente para parecerem desiguais. De alguma forma, já sabiam.
Nenhuma palavra é proferida. Nenhuma promessa a ser rompida.
Algumas horas depois, Jasper e Aguiar se perdem no que seria o último sacrifício do agente, em nome daqueles que se tanto jurou proteger e vingar. Sua família.
No dia seguinte, a arma é leve nas mãos de Pomba, expurgada de qualquer peso de promessas vazias. Em seu último suspiro, uma voz ecoa em sua mente.
Lealdade.
